“Arenização” necessária dos estádios paranaenses

A última Copa do Mundo - o torneio mais importante de futebol do mundo, foi realizada no Brasil. As discussões sobre “a copa das copas” sempre era a mesma: “ao invés de investirmos em estádios, é melhor investirmos em saúde”; “é melhor cancelar a copa e cuidarmos da educação do nosso pais”; “o orçamento para a construção dos estádios já ultrapassa o dobro do valor inicial”. Frases como estas eram repetidas constantemente pela população e nos canais da imprensa esportiva do Brasil. Mas, qual foi o legado dos estádios da copa na prática?
Um levantamento divulgado nesta semana pela empresa BDO Brasil, especializada em consultoria, mostra que a arrecadação em bilheteria foi recorde no Campeonato Brasileiro do último ano: R$ 236 milhões de reais arrecadados. Há 10 anos, no Campeonato Brasileiro de 2006 o valor era de R$ 52 milhões de reais. O aumento significativo deve-se ao valor do “ticket médio”, isto é, a média do preço cobrado pelos ingressos nos estádios, que chegou a R$ 40,00 em 2015.
O fator curioso demonstrado pela BDO Brasil é o ranking dos estádios com maior média de público do país na última temporada. Os melhores colocados são estádios novos ou reformados, que eram obsoletos e passaram a integrar o estilo “arena europeia”: cadeiras confortáveis, acesso fácil, arquibancada próxima do gramado e muita modernidade.

A Arena da Baixada foi a 12ª colocada em média de público em 2015. Fonte: BDO Brasil/Sportv
Se verificarmos o gráfico, apenas os estádios Morumbi (São Paulo-SP), Pacaembu (São Paulo-SP), Couto Pereira (Curitiba-PR), Ilha do Retiro (Recife-PE), Orlando Scarpelli (Florianópolis-SC), Vila Belmiro (Santos-SP), Ressacada (Florianópolis-SC), São Januário (Rio de Janeiro-RJ), Serra Dourada (Goiânia-GO) e Moisés Lucarelli (Campinas-SP) aparecem na lista dos melhores colocados em média de público que não são as chamadas “arenas”, ocupando também as últimas posições.
Este levantamento demonstra-nos duas tendências do torcedor de futebol da atualidade: 1) o torcedor deseja ir ao estádio ver mais que um jogo de futebol, mas sim um espetáculo. Para isto, o torcedor deseja um estádio com cobertura, com boas e modernas lanchonetes, com banheiros limpos, bom acesso por transporte público ou estacionamento amplo (e barato) e a possibilidade de levar a família ao estádio, com conforto e segurança; 2) a tendência da “arenização” leva um público mais diferenciado aos estádios, inclusive as famílias, citadas acima e, consequentemente, aumenta a probabilidade de elevar a quantidade de público. Aliado a isto, os programas de sócio-torcedor que, pelo visto deslancharam em 2015, mostram como os clubes devem agir: facilidade de ingressos e presença do torcedor garantida nos estádios.
O Paraná parado no tempo
Diante destes números e do inegável sucesso das “arenas”, questionamos então: por quê o Campeonato Paranaense não atrai o público? óbvio que não podemos compará-lo ao certame nacional. Tampouco podemos nos afastar da crítica importante que o fenômeno das arenas tornou os estádios mais chatos. Mas uma das respostas está aí: é preciso modernizar os estádios do Paraná para, então, tentar atrair o torcedor, acostumado a assistir no conforto de sua casa o Campeonato Paulista, o Carioca ou o Gaúcho, tratando-se especialmente da população do interior do Estado.
A tabela abaixo demonstra a data de inauguração e a capacidade dos estádios das equipes que irão disputar o Campeonato Paranaense de 2016:
| Estádio | Município | Capacidade | Inauguração |
|---|---|---|---|
| Arena da Baixada | Curitiba | 40.305 | 2014 |
| Major Antônio Couto Pereira | Curitiba | 40.502 | 1932 |
| Arnaldo Busatto (Olímpico) | Cascavel | 30.000 | 1982 |
| Do ABC | Foz do Iguaçu | 6.400 | 1980 |
| Ecoestádio Janguito Malucelli | Curitiba | 3.500 | 2007 |
| Jacy Scaff (do Café) | Londrina | 30.000 | 1976 |
| Regional Willie Davids | Maringá | 21.000 | 1976 |
| Germano Kruger | Ponta Grossa | 13.000 | 1941 |
| Durival Britto e Silva (Vila Capanema) | Curitiba | 17.140 | 1947 |
| Ubirajara Medeiros | Cornélio Procópio | 4.000 | 1970 |
| Fernando Scharbuh Farah | Paranaguá | 10.000 | 2004 |
| 14 de Dezembro | Toledo | 12.000 | 1967 |
Se analisarmos as estruturas e a inauguração , podemos notar que a maioria deles surgiu entre o final da década de 1960 e o início da década de 1980. Ou seja, neste período de 15, 20 anos, a maioria dos estádios foi inaugurada e, provavelmente por falta de continuidade dos clubes locais e por conta do baixo orçamento que o esporte tem nos orçamentos públicos, a modernização dos palcos do Paranaense de 2016 ficou no passado.
Apenas a Arena da Baixada, estádio da Copa do Mundo no Paraná atende ao perfil das “novas arenas”. Mesmo com as recentes reformas, a estrutura do Couto Pereira ainda não comporta o “padrão arena”, muito em virtude das arquibancadas descobertas. O mesmo vale para a Vila Capanema - que não conta com cadeiras na maioria das arquibancadas e tampouco cobertura, do Ecoestádio Janguito Malucelli (apesar das cadeiras, não há cobertura das arquibancadas) e do popular “Caranguejão”, em Paranaguá.
Casos como o Willie Davids (que apesar da reforma ainda carece no quesito conforto), do estádio do Café, que passa pela troca do gramado - mas com boa parte da torcida sob as intempéries, do 14 de Dezembro, do Germano Kruger, do Olímpico de Cascavel, do ABC e do Ubirajara Medeiros, todos com estruturas antigas e ainda inadequadas para os padrões atuais de sucesso das “novas arenas”.
O que encontramos muito nos estádios do interior do Paraná é a falta de estrutura mínima, em geral: maioria das arquibancadas descobertas, lanchonetes com bebida e comida de baixa qualidade e alto custo, banheiros sem as condições mínimas de uso e situação precária do espaço oferecido à torcida visitante. Isso sem citar os setores de imprensa, que dificultam muito a atuação da cobertura jornalística do futebol.
As alternativas de futuro
Além, é claro, da fidelização do público com os programas de “sócio-torcedor”, os estádios paranaenses precisam urgentemente de reformas estruturais. O caso dos clubes da capital (sobretudo o Coritiba) parece menos complicado, uma vez que a parceria com empresas de interesse na exploração dos naming rights pode atrair investimentos. No interior a saída parece a mesma: as chamadas parceria público-privada (PPP) ou até mesmo a concessão dos espaços pelo poder público pode otimizar os estádios, ofertando um local para shows e espetáculos diversos (mesmo nas menores cidades, que carecem destes espaços).
Pode parecer utópico esta sugestão de concessão ou “arenização” dos estádios do interior. O fato é que o futebol paranaense fica cada vez mais atrasado em relação aos demais e, a atração de um bom público passa pelo bom futebol apresentado pela equipe da casa, por um bom preço dos ingressos e pelos atrativos dos estádios - algo que o Palmeiras comprovou durante todo o 2015. Aliar futebol a um espetáculo de entretenimento é uma das soluções para atrair novos torcedores, que vão gastar mais e, consequentemente, auxiliar as equipes interioranas.
Preserve o jornalismo e cite a fonte ao copiar. Se diploma não vale nada, a ética deve servir. Pelo bem do jornalismo. Equipe Redação em Campo.
Tiago Valenciano
Tiago Valenciano é Cientista Político por formação, mas apaixonado por futebol. Pesquisador sobre estádios de futebol, acompanha o futebol paranaense desde 2005.


