Sem preconceitos e com muita paixão! Torcida organizada do JMalucelli reúne amantes do futebol

Por Guilherme Valério, especial para o Redação em Campo
O JMalucelli foi fundado em 27 de dezembro de 1994, com o nome de Clube Malutrom, mudando para o nome atual em 2005. Em 2009, após uma parceria com o Corinthians, adotou o nome de Corinthians Paranaense, como ficou conhecido até 2012, quando voltou a ser chamado de “Jotinha”. Durante todo este período, em meio a troca de nomes, sempre se acreditou que não houvessem torcedores do clube. Mas não é o que vemos nos jogos do clube no Janguito Malucelli. E é com um destes torcedores, um dos fundadores da Torcida Organizada Jovem Jota, Ivan Araujo, que o Redação em Campo conversou. Conheça um pouco mais sobre a torcida e os torcedores do Jotinha.
Redação em Campo: Ivan, quando e como começou a torcer para o Jotinha?
Ivan: Minha família é do Piauí, é uma família de fanáticos por futebol, todos flamenguistas. Eu cresci em Curitiba, desde cedo fanático pelo Flamengo. Pela distância de meu clube do coração, sempre quis estar nos estádios, sentia falta da paixão, de estar acompanhando um time de perto, comecei a sentir essa necessidade na adolescência. Ao mesmo tempo sempre foi muita provocação com torcedores do Atlético, Coxa ou Paraná, muita gente até mesmo acha errado você torcer pra time de fora, mesmo que tenha sido criado em uma cultura que não é exatamente a paranaense. Então encontrei essa solução, um dia eu estava passando pelo Parque Barigui e o Jotinha disputava uma partida, eu pensei “por que não?”, e decidi frequentar os jogos. Isso foi em 2008, eu tinha 14 anos. Desde então, adotei o Jotinha como meu time, afinal eu sou metade piauiense e metade curitibano e é certo que eu tenha um time daqui.

Ivan Araújo (à direita) ao lado de Pepeu, também um dos fundadores da torcida Jovem Jota. Foto: Arquivo pessoal
RC: Quando a Torcida Jovem Jota foi criada?
Ivan: Os fundadores da Jovem Jota começaram a frequentar o estádio em 2008 também. Inclusive naquele ano o Jotinha disputou a Série C. O público era parecido com o de hoje, composto por alguns curiosos e familiares dos jogadores. Nós éramos os mais empolgados, e costumávamos ficar com o pessoal da Torcida Unida do Jotinha. Eles gritavam bastante, eram quase todos atletas da base do clube.
Quando o clube se tornou Corinthians Paranaense todos nós deixamos de frequentar, sentimos muita falta, porque o perfil dos fundadores era esse mesmo, gente que era de fora, que torcia para times de fora e acabou ficando órfão. Em 2013, quando retornou como Jotinha, eu me perguntei um pouco se deveria voltar, e no fim decidi que sim. Liguei para o pessoal de sempre, além de outros que se juntaram a nós. Dessa vez a Torcida Unida não existia mais, então a gente tentava entoar uns gritos para animar a equipe.
Um dia, o Pepeu (um dos fundadores da torcida), estava conversando com a Ruthe Precoma, (assessora de imprensa do JMalucelli), e ela deu a ideia de montarmos a torcida. Naquele momento já estávamos em umas oito pessoas mais ou menos, avaliamos as dificuldades, refletimos um pouco e no fim decidimos que seria uma boa ideia, se seguíssemos bem a nossa proposta.
O clube sempre nos apoiou bastante, ainda apoia, mostram-se muito abertos e empolgados com a ideia. A estreia oficial da Jovem Jota foi no Paranaense de 2013, contra o Coritiba. O placar final foi 3 a 0 para eles, mas fizemos um barulhão!
RC: Qual era a ideia principal em sua criação?
Ivan: O pessoal da Jovem Jota sempre teve uma ideia bem diferente do padrão das demais Torcidas Organizadas aqui do Brasil. Não são pessoas que cresceram torcendo pelo clube, nem tinha como ser, mas são de um modo geral pessoas que cresceram amando muito o futebol, admirando a paixão dos estádios, a festa das torcidas, conhecendo o futebol profundamente. São pessoas que antes de tudo acompanham futebol, tem opiniões políticas bem firmes, e muitas críticas sobre o mundo dos esportes. Nossa ideia era atrair para a torcida, para o Ecoestádio esse público, pessoas que gostam de futebol, que não tem um time para torcer em Curitiba, que tem um time aqui mas não tem dinheiro pra ir a jogos da Série A, ou simplesmente que torcem pra algum dos outros três times da capital mas gostam de curtir o futebol a fundo, ter uma experiência diferente.
Nós temos a consciência de que o ambiente no Ecoestádio é incrível! É um estádio que já foi citado em várias listas de arenas exóticas pelo mundo e queríamos que as pessoas continuassem enxergando nosso “Janguitão” como um espaço onde pessoas que gostam de futebol possam curtir uma boa tarde, sendo nossa Torcida uma parte do ambiente bacana.
Por tudo isso, acho que tem quatro coisas que definem a Jovem Jota: A primeira é o bom humor, que está nas nossas atitudes e nos nossos gritos, para deixar esse ambiente leve; a segunda, é o respeito as outras torcidas, até porque fazem parte da Jovem Jota flamenguistas, atleticanos, corintianos, coxas-brancas e outros mais, não gostamos de ficar provocando torcedores visitantes e queremos que eles também aproveitem a visita; a terceira é o apoio ao clube, gostamos de cantar para incentivar - acho que há uma tendência de torcidas brasileiras a exigir demais da equipe nos momentos de crise - as vezes fica agressivo e exagerado, não era essa nossa ideia; e a quarta é a mentalidade humanista, a Jovem Jota é uma torcida de gente politizada, contrária a ‘gentrificação’ dos estádios e esse modelo das “novas arenas” e contra o racismo e a homofobia que são problemas bem sérios nas arquibancadas. Espero que sempre possamos manter esses ideais de alguma maneira.
RC: O que você pensa sobre Torcidas Organizadas?
Ivan: Sou admirador das torcidas organizadas, e como integrante delas sou parte desse mundo de alguma forma. Acho que como instituições que apoiam o clube o papel das organizadas é essencial. As arenas modernas com ingressos caros estão tornando nossas torcidas mais frias, perdendo aquela mística da paixão que existe ainda muito fortemente no futebol latino-americano. Nesse sentido, o papel das Torcidas é fundamental. O que repudio sem dúvidas é a ultraviolência e as atitudes desrespeitosas com torcedores visitantes. Me lembro que quando aconteceu aquele episódio de Joinville na partida entre Vasco e Atlético no final do Campeonato Brasileiro de 2013, fiquei tão triste que até fiz um post na página da Torcida perguntando aos integrantes e simpatizantes se nós deveríamos continuar existindo. Tenho consciência de que esse é um problema estrutural de toda a sociedade brasileira, que é muito maior que o futebol, e que culpabilizar individualmente os integrantes não vai resolver o problema.
No meu entender, a função primordial de uma Torcida Organizada é apoiar o clube. Nesse sentido, outra coisa que me incomoda em algumas ações de torcidas organizadas é que a violência as vezes deixa de ser entre torcidas para se tornar violência entre torcida e clube. Por mim eu sairia de uma partida no Ecoestádio e iria diretamente para o bar com o pessoal da torcida visitante. Me lembro quando disputamos a Série D em 2013, a torcida não foi ao jogo contra o Botafogo (SP) lá em Ribeirão Preto, mas uma das torcidas deles entrou em contato conosco perguntando se iríamos, falaram que eles costumavam a receber as outras torcidas para confraternizar, e achei aquilo muito emocionante.
O futebol é paixão, paixão é algo perigoso, acho que precisamos dar fronteiras. Na minha opinião, a paixão pelo futebol se torna mais bonita se for compartilhada, e não confrontada. No meu mundo ideal, as Torcidas Organizadas mantêm com seu clube uma relação de paixão pela camisa, e com outras torcidas uma relação de paixão pelo futebol.
RC: Se alguém que simpatiza pelo Jotinha, quiser fazer parte, como pode fazer?
Ivan: A Jovem Jota não tem um estatuto, nem tem burocracia. É uma Torcida Organizada que tem muito de Torcida e pouco de Organizada. Teoricamente não tem algo que comprove que você é da Jovem Jota, nós queremos ser um grupo de pessoas que apoia o time, não uma instituição famosa individualmente por seus atos. Acho que se a pessoa vai ao Ecoestádio, junta-se à nós, canta durante o jogo e concorda com as ideias gerais da torcida, as ideias de que o ambiente do estádio deve ser leve, de que o bom humor e o apoio prevalecem, e de que não deveriam haver lugar para os preconceitos nos estádios, então ela já pode se considerar parte.
RC: Terá algo novo para o Paranaense de 2016?
Ivan: Ainda não discutimos nada sobre isso, mas devemos fazer reuniões ainda esse ano para debatermos os rumos da torcida. No que depender da minha vontade, a Jovem Jota estará mais atuante em 2016! As pessoas vão sentir mais a presença da torcida do Jotinha em Curitiba.
RC: Falando como torcedor, quais suas expectativas sobre o Jotinha para este ano? E para o futuro?
Ivan: Espero que o clube se classifique para Série D. É muito diferente ver o Jotinha jogando em competições nacionais, a emoção é outra. A Série D é muito equilibrada, mas tenho o sonho de ver o Ecoestádio recebendo partidas das oitavas de final da D, Imagine a emoção? Para o futuro, bem, como torcedores do Jota temos sempre que ser humildes, mas eu gostaria que o clube fosse para a Série C para ter um calendário durante o ano todo. É muito ruim quando passamos meses sem ir ao estádio porque o clube não está em nenhum torneio.
RC: Para finalizar, gostaria de deixar um recado, uma mensagem aos torcedores do Jotinha?
Ivan: Saudades de vocês, torcedores! Está chegando a hora! 2016 é logo ali, e eu espero ver todos no Ecoestádio gritando muito pelo time. Obrigado!
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