Solidão da América

Um dos maiores escritores da história, o colombiano Gabriel Garcia Marquez, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1982. Em seu discurso intitulado “A Solidão da América Latina”, retratou as mazelas e a dura realidade do povo da América Latina e o distanciamento cultural e de realidades entre o nosso continente e o europeu.
Ontem, assistindo ao jogo entre Boca Juniors e River Plate, lembrei do histórico discurso de “Gabo”. Mesmo interpretando as cenas lamentáveis de La Bombonera em cima dos padrões da nossa realidade, não há como fazer um paradoxo entre o que ocorre na Libertadores da América e na Champions League.
Em pleno século XXI, os acontecimentos em Buenos Aires dizem muito sobre como, ainda, o futebol sul-americano é atrasado em termos de organização e repressão a torcedores delinquentes.
O pensamento tosco de que utilizar-se de artifícios mesquinhos como os de ontem, para pressionar adversários e arbitragem, vai ajudar a ganhar partidas, demonstra o quão retrograda é a mentalidade de boa parte dos dirigentes e torcedores em nosso continente.
A falta de respeito entre os adversários e para com quem assistia ao jogo, somente desvaloriza ainda mais uma competição tão tradicional como é a Libertadores. Estádios sem estrutura, invasões no gramado, vestiários sem as mínimas condições, gramados ruins e a violência entre torcedores são marcas ainda presentes no principal campeonato entre clubes do hemisfério sul.
Levando em consideração esse distanciamento de realidades somente deste lado do Atlântico, aqui no Brasil, embora tenhamos muito a melhorar em gestão e transparência, nos encontramos um patamar acima do restante dos clubes sul-americanos, principalmente no que se refere a aspectos econômicos.
O Campeonato Brasileiro, por exemplo, é muitas vezes mais rentável que a própria Libertadores. Clubes médios daqui possuem receitas superiores que a maioria dos que disputam a competição continental. Nossos estádios possuem melhor estrutura, sem mencionar as arenas construídas para a Copa do Mundo.
Quanto tempo levará para que os demais clubes da América do Sul atinjam o mesmo nível? Quanto tempo levará para termos uma Libertadores organizada e valorizada como é a Champions League?
São competições e mundos muito distintos. No mesmo continente encontramos realidades muito diferentes.
No final do seu discurso, Gabriel Garcia Marques diz:
“Cara a cara com esta realidade horrenda que pode ter parecido uma mera utopia em toda a existência humana, nós, os inventores das fábulas, que acreditamos em qualquer coisa, nos sentimos inclinados a acreditar que ainda não é tarde demais para nos engajarmos na criação da utopia oposta.”
Torço para que a Taça Libertadores tenha uma nova chance para se remodelar, reestruturar e, principalmente, se valorizar, embora ache isso muito mais uma utopia da vida ou mais um texto carregado de realismo fantástico, como nos escritos por Gabo.
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