O amor em seu estado mais puro
Brasil, um país onde culturalmente a célebre frase de Pierre de Coubertin não tem vez, aqui nesta porção enorme de terra, o importante não é competir, é ganhar. Os brasileiros torcem pela vitória e não por cores, ideologias ou instituições, só importa o sucesso. Mas existe uma resistência, um lugar onde se deseja o melhor, é claro, mas que se ama mesmo quando ele não vem. Curiosamente, o nome desta resistência também é Brasil. Um Brasil bem menor, de proporção bem inferior, mas capaz de uma mobilização do tamanho do país inteiro. O Brasil de Pelotas cultiva em seu torcedor o amor em seu estado mais puro. Não se pede nada em troca, não se condiciona o sentimento a resultado algum. Apenas se ama, pura e simplesmente.
Imagine que seu time foi o primeiro campeão do seu estado, mas nunca mais voltou a levantar este título. Imagine que seu time é de uma cidade situada no interior, com 300 mil habitantes, e que na capital há dois gigantes do futebol mundial. Imagine que mesmo assim, a torcida do seu time domina o município. Imagine que seu time já foi terceiro colocado do Brasileirão batendo o poderoso Flamengo de Zico. Imagine agora que este time estava disputando a última divisão nacional e conquistou um modesto acesso à Série C no sofrimento da decisão por pênaltis e que após a conquista fora de casa, a delegação do seu time volta à cidade e é recebida por dez mil torcedores. Agora pare de imaginar, este é um torcedor xavante.
Torcida Xavante escoltou ônibus do clube da entrada da cidade ao Estádio Bento Freitas. (Foto: Jonathan Silva/GE Brasil)
Na noite desta segunda-feira (20), a delegação do Brasil voltou à Pelotas e foi recebida por milhares de torcedores. Tamanha mobilização por um simples acesso à Série C pode parecer um exagero para uma equipe que já foi tão maior que isso, mas para o torcedor xavante, nada que sirva para demonstrar seu amor é exagero. Esta foi a correção histórica de uma série de injustiças. Quando a equipe começava a galgar vôos mais altos, uma curva fatal na história derrubou todos os planejamentos. Em sequência, um tribunal confuso nebulou o maior ano da história do clube. As mãos de Eduardo Martini e o pé esquerdo de Rafael Forster na tarde de domingo (19) foram a redenção de um clube/nação.
Que time deste tamanho leva 600 torcedores a 2,3 mil km de distância em uma quarta divisão nacional? Que clube desta proporção espalha seguidores por todo o país e proporciona a criação de núcleos de torcedores em todas as regiões da nação? Que instituição deste porte leva quase dez mil torcedores às ruas para festejar um acesso às 21h de uma segunda-feira?
A correção história está feita, o clube retoma seu caminho para sonhar com conquistas maiores, e já nesta temporada. Mas independente do título ou não da Série D, os objetivos de 2014 foram conquistados. O acesso é mais que uma correção, é uma coroação de um trabalho organizado e sério, encabeçado pelo treinador Rogério Zimmerman, que rema no sentido contrário ao costume do país e completou 29 meses à frente do time de coração.
O torcedor xavante demonstrou para todo país que há um Brasil onde o amor é cultivado em seu estado puro. Nesta segunda, esse amor foi traduzido em gratidão.
Toco y me voy!
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