Não haverá amanhã

Dedos entrelaçados. Mãos dadas. Passos curtos. A pipoca em frente à igreja e alguns metros depois chegamos à bilheteria. Passamos a revista, rodamos a catraca e já podemos ver à frente o gramado. Subimos as escadas, procuramos o melhor lugar e ali ficamos. Enquanto esperamos, as arquibancadas vão enchendo, a torcida se agita, a ansiedade toma conta. Um cutucão depois ele já está sobre meus ombros, com os olhos brilhando. As cores, as bandeiras, a cadência da bateria. Um som único, o Coritiba sobe ao campo.
Gralak, Pachequinho, Brandão, em meio aos ídolos, um menino magrinho, cabelo encaracolado. Um garoto canhoto vindo de Colombo. Rola a bola e em poucos minutos a desconfiança passa a ser encanto, o povo verde e branco se espanta com tamanha velocidade e inteligência em corpo tão franzino. Apita o árbitro, equipes para o vestiário. A ansiedade volta a fazer parte daquelas almas que lotam as dependências do Couto Pereira.
Voltam as equipes, recomeça a partida. O segundo tempo é o mais difícil, é o fim, não haverá amanhã. O garoto já não tem a mesma velocidade, o corpo já não é o mesmo, o cabelo muito menos. A velocidade deu lugar a cadência, a inteligência agora tem a experiência ao lado, o encanto já virou idolatria, verdadeira devocão, amor puro. O menino de Colombo agora é o ídolo, rodeado por Vanderlei, Luccas Claro, Robinho… Ouço uma voz sobre meus ombros, “Papai, quem é aquele ali?”, apontando para o careca que carrega o número 10 às costas. A resposta é fácil. Ele é você, filho, ele sou eu, ele é cada um de nós que está aqui. Ele é aquelas duas faixas verdes que cruzam o tecido branco sagrado. Ele é o Coritiba, ele é Curitiba, ele é Colombo.
O menino de Colombo foi ainda mais longe que o homem que dá nome ao seu local de nascimento. Também descobriu a América, mas alçou vôos ainda mais altos e foi ao encontro do mundo. Para encerrar suas aventuras, voltou ao seu mundo próprio, voltou para seu povo.
Despedidas nunca são fáceis, não é da natureza do ser humano lidar bem com a falta. Há aquelas ocasionadas pelo acaso, ou pelo destino, que talvez sejam as piores. Mas mesmo as planejadas, previstas com antecedência, são difíceis, tendem a tristeza. Afinal, há como planejar um sentimento? Há como controlar a saudade que já toma conta do peito antes mesmo do momento derradeiro?
Cada torcedor presente sabe que lembrará exatamente de onde assistiu ao jogo, em que minuto ficou mais tenso, em qual momento sentiu o maior aperto em seu peito. Quando o consagrado craque, sem cabelos, pisar o gramado neste domingo, ele será o mesmo menino franzino, de cabelo encaracolado, que subiu ao campo há 19 anos atrás. A diferença é que ele não estará mais saindo de Colombo para ganhar o mundo, ele já estará no Alto de todas as Glórias, e não haverá mais acréscimos.
Aproveite, desfrute, viva intensamente cada passe, cada domínio, cada falta alçada para a área. Acompanhe com atenção cada passo de Alex. São 90 minutos e nada mais. Não haverá amanhã.
Toco y me voy!
Foto de capa: Lara Farias.
Fotos de dentro: Coritiba.
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