A Dama de Ferro, a anistia e a responsabilidade social, por Rodrigo Barp
Nosso colaborador da semana aqui no Gestão FC é o amigo Rodrigo Barp, um verdadeiro craque quando o assunto é responsabilidade social corporativa no esporte. O Rodrigo, entre outras atividades, tem um trabalho exemplar junto ao Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, especialmente com o Programa “Gols pela Vida”.
Boa leitura!
A Dama de Ferro, a anistia e a responsabilidade social
Governo Federal e Ministério do Esporte deveriam exigir uma contrapartida social dos clubes para promover governança e sustentabilidade corporativa
publicado, originalmente, no portal Universidade do Futebol (www.universidadedofutebol.com.br) em 22/04/2013
Já há um bom tempo, as melhores práticas de gestão corporativa impulsionam, dentro das instituições, a compreensão da posição privilegiada que estas ocupam na sociedade e que, uma vez conscientes do seu papel, promovam a chamada responsabilidade social corporativa.
Convencionou-se dividir a sociedade, nesse sentido, em primeiro setor (o Estado), segundo setor (a iniciativa privada) e terceiro setor (as organizações não-governamentais/entidades da sociedade civil) para melhor se delinear as nuances.
Muito do desenvolvimento socioeconômico de um país depende do grau de articulação e engajamento dos três setores na criação e execução de programas variados, voltados à saúde, à educação, à cultura, ao esporte.
Com efeito, os clubes de futebol são importantes instituições que ocupam esta posição social privilegiada, para além daquilo que acontece, eminentemente, dentro do campo e das competições por eles disputadas.
Mais ainda do que representarem, para muitos jovens, a oportunidade de ascensão social e econômica para toda a família, os clubes de futebol têm, na comunidade em que estão inseridos, a origem e a razão de sua existência, pois a influenciam e por ela são influenciados.
Clubes de futebol personificam e incorporam ideologias, crenças, símbolos e aspectos culturais em dada cidade, estado, região, país.
E, por tais razões, gozam de imenso potencial de engajar a sociedade em atividades e iniciativas que extrapolam sua essência meramente esportiva e competitiva. Existente, pois, esse elo entre comunidade e clube, a força motriz para o desenvolvimento de programas de responsabilidade social corporativa no esporte encontra terreno favorável.
E o que isso tem a ver com o futebol brasileiro?
Tudo, uma vez que se discute, no seio do Ministério do Esporte, a possibilidade da criação de um grande programa de anistia financeira a grande parte dos passivos acumulados pelos clubes de futebol, exigindo-lhes, em contrapartida, dentro outros, a criação e execução de programas de inclusão social por meio de atividades esportivas.
Na Inglaterra, a responsabilidade social corporativa dos clubes de futebol existe, fundamentalmente, a partir de 1981, quando tensões raciais na periferia das maiores cidades do país levaram o governo Thatcher a lançar o programa de inclusão social denominado “Action Sport”, que incentivava a prática esportiva.
O governo mapeou a ociosidade de algumas instalações esportivas do país, ao mesmo tempo em que reconheceu nos clubes o grande potencial de engajamento, coesão e identificação social e lhes convocou a aderir ao programa.
Nesse tempo todo, a evolução da natureza e da qualidade dos programas executados apontou para que fossem classificados nestas categorias: educacionais; esportivos; de inclusão social; de integração cultural; familiares; saúde; assistência social/beneficência.
Para que se tenha uma referencia mais precisa, dos 20 clubes da Premier League, em 2011-2012, todos mantinham programas de responsabilidade social corporativa, totalizando 355 programas.
Média de quase 18 programas sociais por clube.

O Departamento de Educação do Chelsea FC Foundation tem como objetivo trabalhar de forma colaborativa para promover a coesão da comunidade, educação e aprendizagem ao longo da vida. Foto: Site oficial Chelsea FC
O Chelsea FC, clube com maior número de programas (44), em 2005-2006 investiu 2.8% do orçamento (4.4 milhões de libras) em responsabilidade social corporativa: 3 milhões para investimentos comunitários; 1.3 milhões para assistência social/beneficência; 200 mil crianças participaram dos programas educacionais do clube e foram doadas 573 mil libras para mais de 700 famílias cujos filhos necessitavam de tratamento contra o câncer.
Espero que todos nós – incluo-me nessa luta – consigamos fazer com que o futebol brasileiro alcance esse patamar de verdadeira responsabilidade social corporativa no esporte.
E que o Governo Federal e o Ministério do Esporte exijam essa contrapartida social dos clubes como sendo a construção de um verdadeiro marco de governança e sustentabilidade corporativa.
A sociedade já deu demais ao futebol brasileiro. Chegou a hora de receber.
Para interagir com o autor: [email protected]
Rodrigo Barp
Advogado graduado pela UFPR. Pós-graduado em Direito e Negócios Internacionais (UFSC). Pós-graduado em Marketing Esportivo (UNICENP). Diretor da Worldwide Football (www.worldwidefootball.com.br), empresa dedicada ao Marketing Esportivo, Relações Internacionais e Direito Desportivo. Membro do Grupo de Estudos em Futebol e Marketing, Estação IBMEC / Cidade do Futebol, desde 2007. Auditor do Tribunal de Justiça Desportiva da Federação Paranaense de Futsal entre 2003 e 2006. Membro da Comissão de Esportes da OAB/PR entre 2003 e 2006. Como advogado, atuou em causas desportivas nacionais e, especialmente, internacionais, junto à Câmara de Resolução de Disputas da FIFA e ao Tribunal Arbitral do Esporte (TAS-CAS), ambos na Suíça.
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