sábado , 13 setembro 2014
RC News
Torcer ou vencer?
Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Torcer ou vencer?

Na última semana, conhecemos os vários tipos de torcedores e seus comportamentos peculiares. Vimos que os clubes brasileiros se desdobram para descobrir maneiras ideais de abordagem para atingí-los na busca por receitas.

Da Europa, observamos exemplos como os campeonatos alemão e inglês, com médias de taxas de ocupação em estádios superiores a 90%. Enquanto isso, o Campeonato Brasileiro resvala em pífios 38,4%, ocupando a 31º posição no ranking mundial.

Vários fatores tem influência na fraca presença de público em nossos estádios, como a violência, falta de estrutura, baixa qualidade do espetáculo, etc. Porém, um questionamento me persegue há algum tempo:

O torcedor brasileiro gosta mais de torcer ou de vencer?

Explico: No Brasil, não só no futebol como em outros esportes, observamos um fenômeno chamado: Pachequismo. Este foi um personagem criado para ilustrar os patriotas extremistas, aqueles que torcem cegamente pela vitória, cegos aos problemas e dificuldades dos competidores ou equipes que estão torcendo e as qualidades e virtudes dos adversários enfrentados.

Um grande exemplo disso é a Fórmula 1 a partir dos anos 80, quando as manhãs de domingo eram conduzidas pelos gritos nacionalistas de Galvão Bueno, os “mocinhos” Piquet e, principalmente Senna, atingiam picos enormes de audiência com suas vitórias diante dos “vilões” Prost e Mansell. Naquela época, a Fórmula 1 era um produto tão valorizado na TV quanto é o futebol nos dias atuais.

O que isso desencadeou? Uma intolerância brutal sobre os representantes brasileiros contemporâneos aos tricampeões mundiais. Rubinho e Massa que o digam! Por quê?

Porque os torcedores foram moldados não a admirar e torcer pelo esporte em si ou pelo atleta, e sim pela vitória. Não é a toa que a audiência das corridas de Fórmula 1 despencou nos últimos anos. Esta é, sem dúvida, a principal das explicações.

Foto: Ricardo Stuckert CBF

Foto: Ricardo Stuckert/CBF

Ok! E o que isso tem haver com o futebol brasileiro?

Muito desse “pachequismo” foi transportado para o torcedor e sua relação com o clube do coração. Facilmente observamos em nossos campeonatos uma grande presença de público nos jogos de clubes que estão na ponta da tabela, enquanto muitos dos que estão na parte baixa da classificação ficam praticamente abandonados pelo seu torcedor.

Ou seja, o torcedor brasileiro, em regra, acompanha seu time quando este está ganhando e não pelo simples fato de torcer pela instituição, pela vontade de ajudá-la ou fazer parte do seu dia a dia.

Mas isto não existe!!!!!

Perguntem aos torcedores do Burnley na Inglaterra ou do Augsburg da Alemanha se eles acham que o clube que torcem tem chances de ser campeão da Premier League ou da Bundesliga. Obviamente que não! E mesmo assim esses clubes terão uma taxa de ocupação nos seus estádios três vezes superior a do Brasileirão em toda a temporada.

Acredito que este seja um dos grandes temas a ser trabalhado quando falamos em desenvolvimento do futebol brasileiro. De nada adiantarão arenas novas, políticas eficazes de combate à violência e melhorias no espetáculo, se a mentalidade do torcedor não for trabalhada no sentido de que a instituição que ele escolheu para torcer é maior que qualquer vitória ou derrota.

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Sobre Orlando Colaço

Orlando Colaço
Advogado. Especialista em Direito do Trabalho e Direito Desportivo. Pós-Graduado em Direito Tributário. MBA em Gestão Profissional do Futebol. Pós-Graduado em Gestão, Marketing e Direito do Esporte FGV/FIFA/CIES. Executivo da Federação Paranaense de Futebol.
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