sábado , 13 setembro 2014
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O preconceito sutil com técnicos negros no Brasil, em Curitiba, com relato de Dionísio Filho
Times de Curitiba não fogem da regra e demonstram que também dão poucas oportunidades aos técnicos negros. Foto: Robson Vilela/Redação em Campo

O preconceito sutil com técnicos negros no Brasil, em Curitiba, com relato de Dionísio Filho

Nesta sexta-feira (12) damos continuidade a matéria sobre o preconceito sutil com técnicos negros no Brasil. Na primeira parte desta reportagem especial, foram abordados os números e exemplos do que acontece em terras brasileiras. Agora, falando em especial sobre este assunto na capital paranaense, Antônio Dionísio Filho, ou Dionísio Filho, comentarista esportivo conta sobre sua experiência na tentativa de ser técnico em Curitiba.

O preconceito sutil com técnicos negros no Brasil, Curitiba não é exceção

No histórico de treinadores dos principais times curitibanos, o Paraná Clube teve, em toda a sua história, 30 treinadores, destes, três são negros: Sérgio Soares, Sérgio Ramirez d’Àvila e Saulo de Freitas. O Atlético Paranaense, por sua vez, nos últimos vinte anos (1994-2014) teve à beira do gramado 41 treinadores dos quais quatro são negros: Hélio dos Anjos (1994), Toinho (1995), Givanildo Oliveira (2006), e Sérgio Soares (2010-2011). O Coritiba, neste mesmo período de 20 anos, contou com 33 treinadores e apenas dois deles são negros: Mauro Fernandes (1999) e Gilberto Pereira (2007). Com esses números fica fácil perceber que se o Brasil, de modo geral, sofre com essa falta de oportunidade para técnicos negros, Curitiba não é exceção.

Dionísio Filho até tentou, mas encontrou dificuldades para seguir carreira de treinador. Foto: Divulgação/Site Terceiro Tempo

Dionísio Filho até tentou, mas encontrou dificuldades para seguir carreira de treinador. Foto: Divulgação/Site Terceiro Tempo

Alguém que já passou por situações relacionadas ao tema tanto como jogador quanto na tentativa por achar um espaço no mercado brasileiro de treinadores, além de ter grande identificação com o futebol paranaense é Antônio Dionísio Filho, comumente chamado apenas de Dionísio Filho ou pelos apelidos carinhosos Dionga ou Sangue Bom. Foi um lateral-esquerdo que passou por grandes equipes do futebol brasileiro como Atlético Mineiro, Internacional, Atlético Paranaense, Coritiba e entre outros tantos times. Atualmente Dionísio é comentarista esportivo, tem um programa na rádio Banda B e participa da edição regional dos Donos da Bola, sendo um profissional muito respeitado no cenário esportivo paranaense.

O comentarista contou como foi sua vida no mundo da bola depois de se aposentar. “Após jogar pelo Cascavel, meu último time, me aposentei em 1989. Tive oportunidades em algumas rádios e também treinei o Nova Orleans na suburbana. Quando eu estava na rádio Clube o Sidney Campos me disse que o Paraná tinha interesse que eu treinasse o time de juniores, e aí o Lourival Ribeiro, um sujeito que eu tenho muita gratidão e lamento muito pelo seu falecimento prematuro, me levou para as categorias de base do Paraná Clube, no qual a gente se sagrou campeão em 1996 de juniores. Naquele time tinha Marcos, que até hoje continua no Paraná depois de ter passado pelo futebol português, tinha o Viana lateral-direito que não chegou a jogar profissionalmente, o Sílvio que jogou profissionalmente assim como o Fabiano e o Wagninho. E os mais conhecidos como Reginaldo Vital, que jogou pelo Coritiba e no Atlético, o Ricardinho que foi campeão mundial, o Tcheco, o Lúcio Flávio e o Perdigão, todos esses trabalharam comigo. E eu fiquei no Paraná Clube até 99 quando o Abel assumiu e eu treinei a equipe mista que disputava a Copa Conmebol na época. Fizemos um bom trabalho, acabamos perdendo nas penalidades máximas para o Talleres, e no final do ano eu resolvi sair porque eu achei que era a hora de dar um salto na minha carreira, me sentia preparado pra ser treinador de um time profissional. Acabei acertando com o Comercial de Ribeirão Preto da Série A1 de São Paulo, do Comercial eu fui pra Francana. No Comercial eu fui dispensado e na Francana eu optei por sair por conta das dificuldades financeiras da equipe. Aí eu voltei pra Curitiba aguardando alguns convites, que foram feitos mas eu entendia que não era um bom negócio”, conta.

Dionísio sentiu as dificuldades que um treinador negro enfrenta para ter oportunidades em times maiores, e acabou se firmando como comentarista esportivo. “Nesse ínterim recebi um convite da Rádio Banda B, através do Deputado Luiz Carlos Martins, Michel Micheletto e também do Marcelo Ortiz, eu acabei aceitando e me dei bem como comentarista esportivo. Houve algumas sondagens, times do interior de São Paulo, do Norte do Brasil, mas eu não quis mais. Não quis mais exatamente porque eu percebi as dificuldades pra um treinador que é negro. Aí podem até dizer que é questão de competência, e eu concordo, agora como é que você vai mostrar sua competência se você não tem oportunidades? É por isso que eu gosto muito de trabalhar na Banda B, porque um dia me deram a oportunidade de mostrar a minha capacidade e já está indo para 15 anos, né? Fiz duas Copas do Mundo, Alemanha e África, estivemos lá presentes, ficamos 40 dias em cada Copa. E isso é um pouco da minha história”.

Ao ser questionado sobre a situação de Andrade, que foi explicada anteriormente (confira a primeira parte da matéria), ele demonstra dúvidas sobre o motivo do treinador não ter conseguido outras oportunidades. “Por exemplo, o Caio Júnior pra mim é um grande treinador, o Cuca também, o Mancini. Eu estou citando esses três que são os mais recentes, são capacitados. Mas eu tenho dúvidas se eles tivessem a minha cor, se eles teriam tido oportunidades pra treinar o Grêmio, pra treinar o Palmeiras”.

E para complementar, o comentarista cita Itamar Bernardes, treinador que passou por vários times do interior do Paraná “Nós temos o Itamar aqui no estado do Paraná, que treinou o Paranavaí e outros times fazendo grandes campanhas, mas nunca houve um convite pra ele ascender na carreira. Se você perguntar pra algum dirigente ele até pode usar como argumento que ele é treinador pra time pequeno, mas não é uma justificativa plausível”, questiona.

O ex-jogador diz que o problema maior não vem das torcidas e sim dos dirigentes, mas acredita que isso vai mudar no futuro. “A torcida não tá nem aí porque a torcida quer resultado. Ela vai cobrar seja de branco, negro, japonês, índio etc. Mas eu fico pensando, os dirigentes não tomam essa atitude de dar chances. Eu acredito que daqui a pouco isso tende a acabar, mas por enquanto essa é a realidade”.

Xingamentos das arquibancadas já foram piores

Dionísio comentou sobre um assunto mais delicado, como quando em alguns momentos em sua carreira de jogador, sofreu com o racismo. “Aconteceram várias vezes. Eu tive vontade de pular o alambrado e da uma porrada na cara do infeliz, mas eu contei até 10 várias vezes porque se eu tivesse tido esse tipo de atitude, aí as pessoas iam dizer que eu era um cara despreparado, que eu não tinha controle emocional. Isso que tá acontecendo agora (diversas ocorrências de racismo mundo a fora) isso sempre aconteceu e era pior ainda porque a Lei Afonso Arinos ainda não estava vigorando, mas eu sofri muito por conta disso. Você ia jogar o cara te xingava, ficava no alambrado com expressões do tipo “Macaco”, “Você tem que voltar pra África”, “Aqui não é seu lugar”, “Maldita Princesa Isabel” só coisas pejorativas assim. Eu cheguei a chorar algumas vezes no vestiário. A realidade era essa, acontecia várias vezes e em todos os lugares. E, como até hoje é assim, eles se aproveitam de estarem no alambrado e não serem identificados para fazer esse tipo de coisa. Se ele me encontra na rua não fala dessa maneira”, lamenta.

É possível que ainda alguém diga que este preconceito com técnicos negros no Brasil não exista e justifique usando a prerrogativa de que simplesmente são os termos técnicos que impedem uma maior atuação desses profissionais. É compreensível que alguns pensem assim, porém é necessário que cada dia mais nós estejamos dispostos a apoiar uma maior incidência deles no futebol, através dos recursos que cada um tem disponível. Esses profissionais estão trabalhando e esperando oportunidades para mostrar seu verdadeiro valor no meio futebolístico.

O apelo aqui não é com o intuito de todos os treinadores negros serem aceitos sem nenhum critério, mas que possam através das chances recebidas, mostrarem na prática e sem nenhum preconceito se são ou não merecedores de tal posto. O que não podemos admitir é que situação incômoda há tanto anos no Brasil continue simplesmente sendo ignorada pela grande parte dos que tem condições de fazer a diferença. Não podemos mais ficar estagnados neste preconceito sutil.

Preserve o jornalismo e cite a fonte ao copiar. Se diploma não vale nada, a ética deve servir. Pelo bem do jornalismo. Equipe Redação em Campo.

Sobre Marcelo Cavalli

Marcelo Cavalli
A paixão pelo futebol nasceu em mim ao natural, e é por isso que esse esporte é uma parte do meu ser. Estou cursando jornalismo para poder viver nesse meio tão fascinante e imprevisível. Ah! e o futebol brasileiro é o melhor do Mundo, sim senhor.
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