Muito no futebol se resume ao encaixe do trabalho de um treinador e são inúmeras as variáveis para que isso aconteça. A hora certa, no lugar certo, geralmente é o fator fundamental para o sucesso do técnico, a prova disso é que os comandantes fazem um trabalho péssimo em uma equipe, mas são campeões no time seguinte e vice-versa. Estilo de jogo histórico do clube, interferência da diretoria nas decisões técnicas, grupo de jogadores que não se encaixa no perfil do técnico e outras milhares de questões dentro e fora de campo influenciam em um trabalho. Escrevo tudo isso para mostrar como é difícil fazer uma previsão sobre o sucesso ou não de um treinador à frente de um time, mas me arrisco, e afirmo com todas as letras, Santos e Enderson Moreira tem um futuro próximo promissor.
Não concordei totalmente com a demissão de Oswaldo de Oliveira, principalmente se o motivo foi mesmo o não aproveitamento do fraco Leandro Damião, mas acho que o clube ganhou com a troca no comando. A carreira de Enderson é ainda muito curta para se apontar um “estilo”, mas os trabalhos do treinador já mostram um caminho que ele deve seguir. Tanto no Goiás, onde fez um trabalho fantástico, quanto no Grêmio, onde obteve um breve sucesso, Enderson Moreira mostrou que gosta de colocar a equipe para mandar na partida, manter a posse de bola e, com calma, chegar ao ataque. Mas o mais impressionante é a movimentação ofensiva que seus comandados apresentam em campo. Esta descrição poderia ser em referência à maneira histórica de o Santos atuar, e este é o principal requisito para o sucesso de um trabalho. Enderson e Santos têm a mesma maneira de pensar o futebol.
Quando despontou para o cenário nacional se mostrando um dos principais nomes de uma nova geração de treinadores, Enderson fazia do Goiás uma das potências da temporada 2013. Semifinalista da Copa do Brasil, sexto colocado no Brasileirão, o time bateu favoritos, venceu os grandes e espantou o país com intensa movimentação e um fulminante ataque comandado pela estrela gordinha Walter. Isto tudo depois de ser Campeão da Série B, com um pé nas costas, um ano antes. E o principal jogador daquele time é justamente o maior exemplo da dinâmica que Enderson aplica nas suas equipes. O antes centroavante fixo foi escalado como referência, mas com liberdade para sair da área, buscar o jogo e trocar de posição com todos os outros jogadores de ataque. O resultado foi um Walter se destacando muito mais pelas assistências e criações de jogadas do que pelos gols que marcava. Essa movimentação, com ultrapassagens, tabelas, mudanças de posição, ainda destacou Eduardo Sasha, Hugo, Renan Oliveira e os laterais Vitor e William Matheus.
O trabalho foi de tanto sucesso que o treinador foi escolhido pelo Grêmio para iniciar uma nova filosofia no clube. No Imortal, Enderson já teve uma prova de fogo logo no começo da temporada, Libertadores da América em um grupo com Newell’s, Nacional do Uruguai e Atlético Nacional. O que antes era denominado “Grupo da Morte” se transformou em uma chance de espantar o continente. Com a mesma movimentação mostrada no Goiás, aliado à um toque de bola constante e consistência defensiva, o Tricolor saiu da primeira fase invicto e como grande favorito ao título. Nas oitavas de final, dois grandes jogos contra o San Lorenzo, que levantaria o título, e uma eliminação por detalhes, nos pênaltis, após perder inúmeras chances de matar o confronto ainda no tempo normal. Tudo ia bem para o técnico até cair na Libertadores, pois no Brasileirão o time não repetia as mesmas atuações, a equipe mostrava “medo de ganhar” e o treinador parecia pensar pequeno, o que em time grande, se transforma em demissão, mas a imagem deixada na competição internacional foi a melhor possível.
Se a demissão foi muito pelo fato de pensar pequeno, esta é a grande lição que Enderson Moreira, acredito eu, tirou da sua passagem pelo Grêmio. Assim como Marcelo Oliveira, no comando do Coritiba, que falhou por falta de ousadia nos momentos decisivos das Copas do Brasil de 2011 e 2012, Enderson falhou no Imortal pelo mesmo motivo. E assim como Marcelo penso que ele aprendeu com o erro e, aliado a toda a capacidade que mostrou e o futebol de grande qualidade que aplicou nos seus dois primeiros trabalhos em equipes principais, Enderson Moreira tem uma enorme chance de fazer sucesso no Peixe. Tudo isso junto ao fato de os estilos do técnico e do clube “casarem” e do atual elenco conter peças como Robinho, Thiago Ribeiro, Rildo, Arouca, Cicinho, Lucas Lima e Gabigol, perfeitos para a movimentação de que tanto gosta, me leva a crer que o Santos acertou em cheio. E agora, quem segura os meninos da Vila?
Toco y me voy!
Redação em Campo Porque o futebol é a nossa paixão.
