O caminho da vitória contado pelo técnico campeão Joel Preisner

Técnico Joel Preisner. Foto: Futebol do Norte

Nosso colaborador Pedro Mendonça conversou nesta semana com o técnico Joel Preisner que foi campeão da Terceira Divisão Paranaense 2012 com o Francisco Beltrão, equipe do Sudoeste do Estado.

 

“Uma visão e uma sensação: o primeiro título: ao comemorar com os jogadores, com colaboradores e dirigentes, vi a expressão de alguns que, como eu, venceram pela primeira vez e lembrei da torcida que estava desacreditada. Os torcedores tinham percebido novidade e começaram a voltar ao estádio, comparecia até nos treinos para nos apoiar. Durante os trabalhos, a visão da responsabilidade da luta não deixava sentir tudo o que estava em volta, agora a sensação entrou numa área virgem do cérebro, fez sorrir e atraiu o mundo bom… Ficar feliz em grupo é bom, um título é eterno e marca !”. As primeiras palavras do entrevistado saem sem vacilar.

 

O treinador campeão da Terceira Divisão Paranaense 2012 pelo Francisco Beltrão FC confirmou a visão que teve antes de vir ao clube. Ele estava disputando o Campeonato Brasileiro da Série D pelo AC Vilhena. Seu time tinha acabado de vencer o Clube do Remo, um dos mais fortes do Norte do Brasil e estava embalado quando Joel decidiu voltar ao Sudoeste do Paraná com um salário menor numa divisão inferior. Muitos não entenderam. Estaria ele trocando o certo pelo duvidoso de forma apaixonada? A folha de pagamento era abaixo da maioria dos adversários da divisão (salário médio de R$ 1.200 e a soma total de R$ 23 mil, incluindo o roupeiro, massagista, todos os jogadores, treinador e a equipe técnica). Mas Joel viu seriedade acima da média na diretoria e conhecia o caráter da maioria dos jogadores. Era esse o combustível que ele teria para usar. Ele percebeu que a seriedade e a equipe técnica podiam viabilizar um trabalho de qualidade: o conteúdo humano.

 

Com aquela visão ele aceitou o cargo de técnico, somou alguns jogadores que trouxe e começou o trabalho. Passou a preparar o time para as disputas intensas que costumam ocorrer na Terceira Divisão, diferente da primeira, de jogo mais cadenciado. Um objetivo era entrosar o grupo para agir em conjunto na pegada forte do interior paranaense sem ser faltoso. Ele planejou um ambiente de garra com inteligência, similar à segunda divisão gaúcha, a “escola de luta” de onde saíram os técnicos da seleção Felipão, Mano e Dunga. Para afinar a maneira técnica de jogar, Joel fez uma pré-temporada intercalando treinos físicos com bola, meio a meio de manhã e à tarde, usando tática e simulação de situações de jogo (ao estilo europeu de periodização). O treinador planejou atuar com forte posse de bola e treinou o grupo para se envolver no ritmo com entrosamento.

 

Antes de o campeonato começar, os treinos já haviam mudado, eram direto com bola, os jogadores estavam afinados na aplicação tática, o time exercia marcação forte para conseguir a bola e então passava a trabalhá-la, tocando desde trás, às vezes em velocidade, outras vezes pisava na bola, mas raramente fazia ligação direta. O entrosamento permitia o toque e gerava um pouco de liberdade, o que fazia muitos jogadores aparecerem pro jogo com o objetivo de

envolver os adversários e abrir caminhos até surgir o espaço de gol.

 

Equipe Francisco Beltrão 2012. Foto: Futgol

Desde a pré-temporada, os jogadores acreditaram no estilo planejado e se concentraram na sequencia de treinos com confiança, mas quando os jogos começaram para valer, algumas dificuldades apareceram, então, Joel exerceu a liderança e focou em possibilidades de variação tática. Conforme os acontecimentos de campo e as emergências o time mudava do 4-3-3 para o 4-4-2 ao 3-5-2, às vezes aproveitando a característica dos meias para variar detalhes específicos durante um jogo. A estratégia de jogar dinamicamente é difícil de implementar, mas foi aí que a qualidade humana refletiu, alguns jogadores mudavam de posição em minutos conforme a zaga ou o meio adversário e o Beltrão conseguiu criar diferenças e crescer sem correr riscos desnecessários.

 

“Havíamos preparado adaptações durante a semana e isso foi decisivo para usarmos como diferencial nos jogos difíceis. Os dois jogos contra o Pato Branco foram o Atletiba de rivalidade do Sudoeste, são jogos de maior público e de muita inflamação emocional, nós sentimos uma alta motivação, mas a batalha veio ainda mais forte e o time poderia perder o controle. Foi aí que nós realmente testamos a sintonia e a cooperação entre os jogadores, no calor da partida alguém se reposicionava e as coberturas eram automaticamente reequilibradas com precisão. As variações de jogo uniram o grupo e foi inesquecível ver o time funcionando no emocional e no cerebral.”

 

O campeonato foi uma vitória de todos. Joel tem anos no futebol, mas ele dirigiu 26 jogadores falando e ouvindo, tendo aprendizados diários de detalhes nos trabalhos com os jogadores. O grupo foi somando pequenas diferenças e agiu com respeito em via dupla. No final, foram 14 jogos, 12 vitórias e duas derrotas. “Nós saímos com a sensação de dever cumprido, fomos disciplinados no planejamento traçado e conseguimos flexibilizar com trabalho sério dentro e fora do campo. Sentimos gratidão com os que nos apoiaram. A delicadeza da população de Francisco Beltrão foi um combustível que somou ao carbo-hidrato do arroz com feijão, aos suplementos isotônicos e malto-dextrina. Nossa dieta não foi restritiva, mas frituras não eram permitidas.”

 

“Ao sermos campeões, não nos julgamos melhores do que os outros, vemos que tivemos foco, concentração e bons adversários. A maioria do futebol paranaense está em evolução, os times que trabalharam bem chegaram. Vemos que se a televisão ajudar, a 2ª Divisão pode revelar novos craques e times fortes, há vários jogadores da primeira que participam da 2ª e da 3ª, há inovação, cursos sobre novos métodos de treinamento, experiências e novos investimentos nas bases. Vemos o esforço de muitos e prevemos uma nova geração de profissionais, inclusive treinadores de talento. O Paraná pode criar algo do que Guardiola fez no Barcelona, valorizar a base, torná-la melhor e subir atletas que não sejam caros para criar times com filosofias de jogo inovadoras e poderosas. Em 2012, nós do Beltrão colocamos dois jogadores da base no profissional, fizemos alguns desenvolvimentos e avançamos. Temos motivos para continuar a acreditar em novas etapas de sucesso, há uma diretoria dedicada e a cidade tem potencial com paz de espírito.” Palavra de campeão.

 

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