Neste ano de 2012, o Projeto Revelação Maringá completou 10 anos de fundação. E para saber mais sobre como teve início este projeto, que atualmente trabalha em parceria com o Colorado Atlético Clube dando oportunidade para jovens talentos disputar o Campeonato Paranaense da Terceira Divisão, além de outras competições das categorias de base, o Redação em Campo conversou com o professor Renato Castro, um dos idealizadores do projeto.
Renato, o que é o projeto Revelação Maringá?
O Projeto Revelação primeiramente é um sonho. Deste sonho passou a ser objetivo. Depois dar oportunidade para crianças carentes e foi conquistando espaço. Tem principalmente o objetivo de dar oportunidades de futebol e também de cidadania, convivência, conhecimentos, amizades e até mesmo cultural.
Hoje o objetivo do Projeto Revelação é dar oportunidade aos jovens de todas as idades que nunca tiveram esta oportunidade, por isso que não é cobrado nada de ninguém.
Por que não cobra nada por este trabalho?
O que penso é que atletas que passam pelo projeto e não tenha condição técnica, pelo menos começam a trabalhar para conquistar seus sonhos, pois enquanto não tiveram esta chance nunca saberiam se um dia poderiam ou deixariam de ser um atleta. Muitas pessoas me perguntam por que não cobro nada. Respondo que enquanto Deus estiver me dando motivação e força para fazer eu pretendo continuar. Te falo de todo o coração, eu sonhava em chegar onde cheguei, mas no fundo não acreditava, pois sozinho é praticamente impossível. Somente com Deus à frente.
E em que ano e como surgiu a ideia do projeto?
Em 2002, em uma conversa da minha esposa, Luciméia com a irmã Neide, do Lar Escola da Criança de Maringá (com o apoio da irmã Cecília que é presidente do Lar Escola). Nesta conversa, elas pensaram que poderia ser feito um trabalho de futebol junto aos adolescentes que saiam do Lar Escola e não tinham mais o que fazer. Hoje, existem vários projetos para eles até mesmo dentro do próprio lar.
Foi estudado e aprovado a ideia. Começamos com 14 atletas que moravam no bairro Santa Felicidade de Maringá. Passaram mais de 100 atletas em quatro anos de projeto. Durante o primeiro ano conseguimos ajuda e durou até o final. Depois disso, os atletas cresceram. Uns foram trabalhar, outros pararam e outros continuaram, e aí, não podíamos deixar estes sozinhos. Saímos do Lar Escola e continuamos dentro do projeto para acompanhar estes atletas que não pararam. Foram vindo outros e outros, hoje contamos com cerca de 15 atletas profissionalizados, nem todos atuando, alguns trabalham, e só jogam finais de semana, outros jogam para mim na Terceira Divisão e treinam a noite.
Como o projeto se mantém? Vocês contam com algum tipo de ajuda?
Hoje o projeto conta com alguns parceiros que nos ajudam com uniformes. Dois parceiros que, a partir deste ano, resolveram nos ajudar. Um é o Mauro Dias que ano passado estava ajudando o Grêmio Maringá, na Terceira Divisão e o outro é o Jhon que também está no Galo. Ajuda muito valiosa. Agradeço muito a Deus por enviá-los ao projeto, pois basicamente vivemos de pequenos patrocínios, de amigos e não investidores.
Quero lembrar que não sou funcionário do Colorado Atlético Clube, sou parceiro - este foi um objetivo e sonho traçado em 2002 e conquistamos. Não temos recursos, eu, por exemplo, não tenho salário. Trabalho na parte da manhã até às 14 horas e dou treino após as 15 até às 17h30. Praticamente me mantenho com este trabalho e minha esposa me ajuda muito, pois também trabalha e repartimos as despesas. Vou te falar, minha família (três filhos, dois casados) me ajuda muito no sentido de aceitar e entender que gosto de fazer.
Mas sonho com algo muito maior. Com o projeto mesmo que seja sem o Colorado! Gostaria muito que fosse com eles, mas!
E o projeto tem apoio ou algum tipo de ajuda de órgãos do governo ou de empresários?
Do governo não temos, pois foi uma opção minha para não ficar devendo favor político. Porém devido ao projeto ser de Maringá e do Jhon ser vereador na cidade, eu consigo um campo que é da prefeitura.
Quanto aos empresários, o Pedro, dono do Colorado AC e empresário de futebol, tem vários atletas. Mas nunca nos ajudou financeiramente, a não ser pagar a arbitragem de jogos. Estamos em busca de parceiro só que se torna difícil, pois gostamos de seriedade e acreditamos que é possível, e nesse meio existe muita sacanagem. (promessas)
Qual o perfil do jovem que participa deste projeto e como eles chegam até o Projeto Revelação? Através de peneiradas, indicação, vocês têm olheiros?
Bom, não exigimos nada de diferente. Simplesmente observamos durante uma semana e faço avaliação. Os jogadores chegam por meio de informações de outros atletas. Nós não divulgamos nada na cidade, já que não temos recursos para manter muitos jogadores.
O grande motivo de ajudar a partir dos 17 anos é que, nesta idade ninguém ajuda ninguém no futebol, só que não conseguem trabalho e ficam nas ruas. Então (…). Não fazemos peneiradas, e o olheiro sou eu mesmo e pessoas que me ligam (indicação).
Qual a maior conquista deste projeto até o momento?
Maior conquista é chegar até onde chegamos e ter pessoas como tu [Redação em Campo] nos dando esta oportunidade de divulgar. Nunca me arrependo de tudo que fiz. De 2002 a 2005 disputamos vários campeonatos sul americanos (Colorado-PR, Itaguajé-PR, em Santa Catarina, no Paraná, em São Paulo), fomos campeão em Itaguajé no juvenil. Todos estes anos disputamos campeonatos regionais da base e inclusive em 2004, nossa equipe foi vice campeã na final com o Galo Maringá, entre 11 atletas da seleção, tivemos três melhores, incluindo o revelação da competição.
Mas a minha maior conquista é saber que vários destes atletas hoje são trabalhadores e pai de família, não tem nada mais gratificante que encontrar eles na rua e me cumprimentar e agradecer o que fiz.
Neste trabalho, dando oportunidade para jovens, teve algum atleta que já conseguiu “voar” mais alto?
No ano passado tinha no Colorado AC, três atletas que estiveram comigo desde o início. São profissionais. Este ano, o Sub20 Estadual outra conquista grande. Temos Maicon Pires (89), que passou por várias equipes e ainda está tentando oportunidade. Edenilson que passou por Japão, Hungria, equipe de São Paulo e a última equipe na primeira divisão do Mato Grosso. Bruno Henrique (90) lateral direito, esteve este ano em Brasília na primeira divisão pela equipe do Ceilandence e Cincão EC, aqui de Londrina. Érick (91) volante, também esteve em Brasília, Caxias e em São Paulo entre outros que estão por aí. Porem, ninguém ainda deu voo mais alto. Ainda acredito neles. Peço a eles que nunca desistam.
Um recado para os jovens que tem sonho de ser um dia jogador de futebol:
Jovem, nunca desista do seus sonhos. Não acredite que tudo acaba com 17 anos, que isto não é verdade. Grande parte dos atletas aparece para o futebol depois dos 20 anos, basta os pais ajudar que é possível. É difícil, mas possível. Sonho é igual a jogo de futebol. Só acaba quando termina.
Me sinto um cara abençoado por poder dar oportunidade a jovens e adolescente. E em ter uma família maravilhosa que me apoia neste trabalho. E como sempre falo não vou desistir nunca. Obrigado.
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Pelo bem do jornalismo. Equipe Redação em Campo.