O futebol é o esporte mais popular do mundo. Ele une as pessoas, independente de classe social, cor ou sexo. Os clubes são como religiões. Seus torcedores são uma extensão do campo de futebol, suam junto com o time, vibram nas vitórias, choram nas derrotas. Enquanto a pelota rola, a alma do torcedor transcende, e ele se esquece de tudo. Ele se sente realmente dono do time quando diz “nós perdemos”, “nós ganhamos”. E é.
Porque vestimos o uniforme quando vamos ao estádio? Porque pintamos a cara, carregamos a bandeira, e a balançamos aos berros na arquibancada, em meio à fumaça dos sinalizadores e os fogos de artifício? Porque somos a alma do time, e o nosso papel é elevar o espírito da nossa equipe ao máximo, e ao mesmo tempo aterrorizar nosso adversário. Um estádio é uma arena de guerra. Sempre foi assim, e sempre será.
E que não venham os defensores da moral e dos bons costumes, dizendo que é isso que incita a violência nos estádios, porque não é. A violência está no coração do homem que é violento e ele será dentro de um estádio ou de uma igreja, ou onde quer que ele esteja. Estamos falando de paixão, e uma pessoa que é capaz de um gesto tão bonito de amor ao seu clube, não seria capaz de tais atrocidades. Se ele age dessa forma em um estádio, não o faz em nome do clube ou de sua torcida.
Não estou dizendo que não existem tais pessoas, estou afirmando que o que elas fazem não se pode colocar na conta de seu “amor pelo clube”, porque uma pessoa dessas não tem amor nem por si própria.
Mas não cabe punir o futebol e o espetáculo, tirando dele a sua alma. E é exatamente isso que está acontecendo nos estádios de futebol, não só do Brasil, mas do mundo. O torcedor está sendo obrigado a se portar como um espectador de teatro. Já baniram as cervejas (quem consegue ficar bêbado com cervejas em estádio, com o preço que é cobrado e com o baixíssimo teor alcoólico?), baniram as bandeiras de mastro (quem vai brigar com cano de PVC?). Na Europa não se pode mais torcer em pé. Isso é um absurdo, quem paga ingresso tem o direito de torcer como quiser.
Alguns times como o Borussia Dortmund, dono de uma das torcidas mais apaixonadas da Europa fez algo muito legal em prol de sua fanática torcida. Nos jogos internacionais, como a Champions League ou a Europa League, onde todos os torcedores precisam estar acomodados em cadeiras, eles colocam no setor onde fica o “paredão amarelo”, atrás do gol, assentos removíveis. Ou seja, na Bundesliga eles torcem em pé. Aliás, há uma lei na Alemanha para que se respeite a tradição dos torcedores, e que pelo menos 10% dos lugares sejam destinados aos que gostam de torcer em pé. São as tribunas Stehplatz.
No verdadeiro país do futebol, a Inglaterra, onde os estádios viraram verdadeiras geladeiras, há alguns sinais de resistência. Recentemente o presidente executivo do Aston Villa, Paul Faulkner deu a noticia aos torcedores do clube, de que planeja fazer um setor no Villa Park onde os torcedores poderão ver os jogos em pé. Os torcedores aprovaram, é claro.
Não está tão longe da nossa realidade. Aqui não temos assentos porque nossos estádios são precários mesmo. As novas Arenas que estão sendo construídas para a Copa de 2014 seguirão o “padrão FIFA”, estão construindo geladeiras gigantes no Brasil também.
Mas o público daqui está sendo moldado para se acostumar a isso. Torcer do conforto do seu sofá já não é novidade alguma. Há tempos que os estádios se esvaziaram, e o máximo que o torcedor se aproxima do time é pela tela da televisão. Criaram os almofadinhas.
E a TV não apenas distancia o torcedor do seu time, como também da realidade. Flamengo e Corinthians têm a maior “torcida” do Brasil. Mas a grande maioria desses pseudo-torcedores jamais viu o Mengão ou o Timão de dentro de um estádio. Aliás, a maioria se quer pisou em um estádio na vida. Se pisou, foi para envergonhar os verdadeiros, aqueles que torcem pelo time independente de mídia ou títulos, indo no templo sagrado de um clube com a camisa de um terceiro que nada tinha a ver com a partida. São os mistos. Eles deixam os estádios coloridos, eles empobrecem o espetáculo. Ver um jogo de outra equipe não é errado, mas é preciso respeitar o espaço do outro. Se dizer torcedor de dois times é um crime moral, tão pesado quanto a bigamia. Não se pode ter dois amores. Existe até torcida organizada de times europeus… no Brasil. Fico imaginando a cena patética a que se prestam.
Não é errado torcer para um time que está distante, mas precisa existir alguma ligação real entre o torcedor e o time. E não vale dizer que viu na Globo e se apaixonou. Amor platônico no futebol não tem fundamento. O seu time precisa de você torcedor. Mesmo que ele não possa te distinguir na multidão, mas ele precisa saber que você está ali colado no alambrado, que você se importa com ele. É por você que ele ainda resiste. E sem você lá no estádio, ele vai morrer.
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Coluna do Torcedor por Marciel Rodrigues Gonçalves


Excelente coluna!!!! Parabéns!!!