1961: o Leão do Norte rugiu mais alto e assustou os adversários - Parte II

Esta é a segunda parte da matéria sobre o título de campeão paranaense de 1961, conquistado pelo Comercial de Cornélio Procópio. Nesta segunda parte você poderá acompanhar os personagens que fizeram parte da conquista do Leão do Norte que até hoje é lembrado por muitos torcedores.

 

Os personagens do título do Comercial

Vitão e sua característica simpatia. Foto: Richard Benvenutti

Cinquenta anos depois do primeiro e único título paranaense do Comercial, quatro campeões de 61 ainda vivem em Cornélio Procópio, Vitor Gedminas, Dirceu Funari, Pedrinho e Torquato. O primeiro deles, Vitor Gedminas, mais conhecido como Vitão, é aposentado pela Caixa Econômica Federal e recebeu a reportagem do Redação em Campo em sua residência. Bastante animado e simpático, apesar de estar passando por um tratamento de quimioterapia devido a um câncer de próstata, Vitão guarda bem as lembranças do título e sente orgulho de ter sido campeão paranaense, mas afirma que o título do Comercial não teve tanta importância quando poderia ter tido nos dias atuais. “Propriamente na cidade não houve assim uma grande comemoração, a gente ia, jogava e voltava. Era um jogo como outro qualquer”. Mesmo assim ele recita o time campeão inteiro daquele ano.

Vitão com a faixa de campeão paranaense - Arquivo pessoal

Vitão começou a carreira de jogador no XV de Jaú, quando foi para o Comercial em 1961 e logo foi campeão, antes de ir para o Leão ele trabalhava na Fábrica Nacional de Motores (FNM) quando em um “belo dia” aparece um senhor dizendo que era do Comercial e o convidou para jogar em Cornélio Procópio. Vitão expôs a situação para seu chefe, que o apoiou em sua decisão e no mesmo ano ele se sagrou campeão paranaense de futebol. Em 1962 foi para o Grêmio Maringá, onde foi bicampeão, em 1963 e 1964 e terminou sua carreira aos 34 anos no Campo Mourão. Ele conta que optou por manter apenas o emprego na Caixa Econômica posteriormente por ter mais estabilidade, mas afirma que o futebol lhe trouxe algumas coisas também. “Para não dizer que o futebol não deu nada, foi através dele que eu terminei minha casa lá em São Paulo, apesar de naquela época os salários não serem estrondosos como são hoje”.

O ex-jogador também comenta das diferenças do futebol da época para o de hoje, além dos salários. “A preparação era totalmente diferente, a gente chegava para treinar, dava algumas voltas no campo, subia a arquibancada com um saco de areia nas costas (risos), era mais a técnica mesmo, se hoje o cara tem um preparo físico ele já pode ser considerado um jogador de futebol”. Vitão também lembra com nostalgia de como eram as viagens na época do Comercial. “Naquela época a gente viajava de Kombi, carro do diretor. Quando nós fomos para Criciúma jogar contra o Metropol, nós fomos de ônibus, comendo pão com mortadela e tubaína na estrada (risos)”.

Esta é apenas uma parte das memórias que ainda permeiam a história do Leão do Norte, pois há outro personagem que fez parte dos tempos áureos do Comercial, Dirceu Funari, lateral-direito do time campeão. Dirceu é dono de uma loja de extintores em Cornélio Procópio e guarda nas paredes de seu estabelecimento os quadros com as conquistas de sua carreira, e olha que não foram poucas. Ele começou a carreira profissional com 16 anos e foi campeão em quase todos os anos que jogou primeiro na Assisense, depois na Ponte Preta e Comercial.

Dirceu Funari em sua loja de extintores. Foto: Richard Benvenutti

Perguntado sobre até que ano ele jogou no Comercial, Dirceu brinca. “Aqui eu joguei até morrer” e se orgulha em dizer que desde os 13 anos, quando começou a jogar futebol, não ficou 15 dias sequer sem jogar, pois nunca teve problemas com lesões. Outro fato que ele lembra claramente é que no triangular final do Paranaense de 1961, o Comercial jogaria em Curitiba contra o Operário, o time todo veio de ônibus e como ele trabalhava como contador em um banco, não pôde vir junto com o elenco, mas depois do trabalho pegou sua caminhonete e seguiu viagem para Curitiba para ajudar seu time a se sagrar campeão.

No final da conversa, Dirceu agradeceu por ter sido lembrado, mas vale ressaltar que ele e os outros campeões de 61 fazem parte da história do futebol paranaense, por terem sidos vencedores em um período no qual o futebol era mais difícil de ser feito, mas era gratificante para estes, hoje senhores, pois basta estar com eles para sentir o orgulho e o brilho nos olhos ao contarem seus feitos, que por mais singelos que sejam representam uma felicidade muito grande.

Nossa reportagem ainda procurou Pedrinho e Torquato, mas ambos não tinham compromissos pessoais e não puderam falar. Os outros campeões que estão vivos estão espalhados pelo Brasil, Villanueva vive em sua terra natal, o Paraguai. Bocage, Garoto e Pinduca já estão falecidos.

 

O palco das conquistas

O Comercial passou a mandar seus jogos no estádio Ubirajara Medeiros, com capacidade para 6.000 pessoas, tempos depois da conquista do título paranaense. Com o fim do Leão do Norte, em 2003, o estádio passou a abrigar apenas campeonatos amadores e serve como sede de uma escolinha do Atlético-PR.

Estádio Ubirajara Medeiros, em Cornélio Procópio. Foto: Richard Benvenutti

Quem administra o estádio é “Seu Zelão”, que assim como os ex-jogadores, se orgulha de ter visto os tempos vitoriosos de Comercial e 9 de Julho, o outro time da cidade. Seu Zelão não viu o Alviceleste ser campeão, mas mora em uma casinha simples, atrás de um dos gols, há 28 anos e presenciou boa parte da história do Leão.

Uma das coisas que Seu Zelão mais gostava de fazer era viajar quando foi roupeiro do time. “A gente ia para Curitiba, Maringá, eu vivia viajando. Fiquei uma semana em Curitiba”. Seu Zelão é um senhor muito simples, tem um pouco de dificuldade para falar, mas isso não é problema, pois nem precisou perguntar nada para ele começar a falar sobre o seu amor pelo futebol. “Se o cara nunca jogou bola e não gosta nem adianta ele se meter”, sentencia Zelão. O amor dele ao futebol é evidenciado no estádio, pois ele é quem corta a grama e faz a limpeza do local. “Eu que pinto as riscas do campo com cal, mas eu prefiro quando e prefeitura manda tinta, aí pode cair um pé d’água que as listras não se apagam”.

 

O arquivo

Boa parte das fotos, quadros, troféus e até a bola do jogo que deu o título ao Comercial estão guardados em um bar no centro de Cornélio Procópio, o Charles Miller, que é de propriedade de um filho de Dirceu Funari.

 

Agradecimento pela colaboração de Marcelo de Paula Dieguez, historiador que mantém um site com histórias de atletas e ex-atletas de futebol.

-
Preserve o jornalismo e cite a fonte ao copiar. Se diploma não vale nada, a ética deve servir.
Pelo bem do jornalismo. Equipe Redação em Campo.

Comentários

comentário(s)

3 respostas a 1961: o Leão do Norte rugiu mais alto e assustou os adversários - Parte II

  1. Newton C Braga

    Muito interessante. Valeu, mas as fotos sumiram. Tentei várias vezes e não surgiu nenhuma. O mesmo sucede com a primeira parte.

  2. OLAR ANTONO BOVOLIN

    O MEU SADUDOSO PAI O SR. BELINI FALECEU EM 2010EM GUARULHOS, TAMBÉM JOGOU NO TIME DE 1961

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>