Coluna do Torcedor - A, E, I… Pega enxada e vai carpir!!!, por Alexander Vieira

Clube de primeiro mundo vende carnê. Os ingressos são todos comprados antecipadamente por seus adeptos (como dizem em Portugal), maior sinônimo de profissionalismo e tão propagado pela mídia brasileira. No Arapongão, não foi diferente, carnês e cadeiras cativas. Após o sucesso de vendas, o Estádio dos Pássaros recebeu apenas seis, dos onze jogos programados na tabela. Ainda assim, o Arapongas foi o segundo time do interior que mais levou torcedores aos seus jogos, mesmo considerando-se os realizados “fora”.

Como é gostoso ser torcedor. No início, tudo é simples. Gosto de chegar cedo ao estádio para cumprimentar os amigos e cornetear. Normalmente, entre uma hora ou uma hora e meia antes dos jogos. O Cris é campeão, jogo às 16h, 13h30 ele tá lá.

Mas, voltando ao título da coluna e em homenagem ao jogo histórico do Arapongão, aí vai:

Primeiro jogo do campeonato, Atlético e Arapongas na Arena da Baixada, um domingo. Semanas antes e a pergunta: - e aí, vamos pro jogo? Tô lá! Bora! E dá-lhe incentivos da família (Cris é meu irmão e Marcão meu primo): - Vocês tão malucos! Ir para Curitiba ver um jogo e voltar! Doidos! Descabeçados (rsrsrs)! E não poderia faltar: - o Arapongas vai tomar um monte! Vão perder tempo…

Por derradeiro, alguém perguntou: - E se o Arapongas perder? A resposta foi unânime, uníssona: - Eu vou ver o Arapongas na Arena, vou assistir o Arapongão!

Chegou o dia, domingo pela manhã, parte o trio de ferro para a capital da capital, que só pensa na capital, só vive a capital e que acha que só existe a capital. Chegamos a Curitóba, digo Curitiba. Na primeira parada para abastecer, um caso que, sempre, lembraremos: afoitos, ansiosos, fanáticos (ei, essa não é outra torcida) não aguentamos e tínhamos que informar o frentista: - Viemos para o jogo.

Abastecendo e sem levantar a cabeça: - *HÃ!*. Não deixamos por menos: - Hoje tem Arapongão! De imediato: - *Quem?* Peitos estufados, mais satisfeitos que um pavão: - o Arapongão! O time do Arapongas!

O pior, pela sinceridade, não era cinismo ou deboche, a resposta foi essa: *- Nunca ouvi falar…*. Não era só o frentista que desconhecia a nossa paixão pelo Arapongão, os responsáveis pela ordem e segurança do confronto, também.

Quando fomos comprar os ingressos por míseros R$ 60,00 cada, estranhamos a falta de policiais no local dos visitantes. Logo veio a informação: ingresso só lá na frente. Não acredito! Sem alternativa, fomos para a frente do estádio comprar ingresso, só o Cris com a camisa do Arapongão. Viramos a rua e um torcedor avisou: - tire a camisa. Lá tá cheio de atleticanos.

De repente, ante a possibilidade de confusão na bilheteria, vários policiais vão para a nossa entrada e solicitam a abertura da bilheteria no local. Lembrando o Marcão: - agora que quase apanhei, abrem a bilheteria aqui.

Após algumas conversas, a PM confidenciou que não havia nenhuma preparação para nossa torcida, sequer imaginavam que iriam ter quase duzentos torcedores. A torcida do Atlético cantava: A, E, I. Pega a enxada e vai carpir! Fiquei cansado de tanto que me mandaram carpir!

Um, dois a zero (resultado que nem o mais apaixonado acreditaria acontecer) e a festa era só nossa. Correria para sair. Assustados e preocupados, fomos caminhando em passos largos. Barulho e “fanáticos” correndo. Passaram por nós e só deixaram o susto. Em meio a tantos “fanáticos”, o negócio era segurar nossa felicidade, dobrar e redobrar a camisa do Arapongão, que o Cris, obcecado, insistia em expor. Bora festar no caminho! Resultado Antológico! Quem sabe, agora, o frentista ouça falar de nós!!!

Após a vitória na Arena, nem tudo foram flores para o Arapongão. Técnico largando o time e colocando a culpa no gramado, estádio interditado e Presidente ameaçando tirar a equipe da competição… Haja coração! Mas, porém, todavia, contudo, entretanto, não obstante, na volta para casa, o Arapongas goleia o ACP, *sapeca*-*iaiá, chocolate e páscoa antecipada*. No fim, a certeza era uma só, a torcida faz muito bem ao Arapongão e o Arapongão faz muito bem à sua apaixonada torcida.

Apenas para completar, a torcida do Arapongas também compareceu em grande número na vitória sobre o ACP, em Paranavaí, mesmo com chuva, e invadiu, como sempre, a cidade vizinha no empate de 1×1. Arapongas, ainda, teve o maior público em uma partida do interior, mais de sete mil no empate de 1×1 contra o Coritiba, único time do interior a tirar pontos do Coxa no Campeonato.

O Arapongas teve média de mais de três mil e seiscentos torcedores em seu estádio. A quarta no campeonato e superior a do poderoso Paraná Clube. Aliás, o Paraná que foi o maior algoz nas últimas participações do Arapongão na 1ª divisão, início dos anos 90, desta vez, foi derrotado no Estádio dos Pássaros e teve o seu rebaixamento decretado no empate por 1×1, na Vila Capanema, contra o Arapongas. Ficou mantida a invencibilidade de vinte anos.
Por fim, o mais importante, empatou fora e ganhou em casa do seu maior rival, o clássico “ARAPUCA”.

Não quero ser melancólico, mas tá difícil. O bem que o Arapongão nos fez nesses últimos quatro anos deixa uma enorme saudade, “um tanto bem maior” (Fernando Anitelli e Maíra Viana – Pena).

Como fiel torcedor, tenho a plena certeza que a torcida pode sim ganhar um jogo. Nelson Rodrigues, o maior cronista esportivo de todos os tempos, assim escreveu sobre uma certa invasão:

* “Dizem os idiotas da objetividade que torcida não ganha jogo. Pois ganha. Na véspera da partida, a Fiel estava fazendo força em favor do seu time. Durmo tarde e tive ocasião de testemunhar a vigília da Fiel.** **(…)*

*A torcida não parou de incitar. Vocês percebem? Houve um momento em que me senti estrangeiro na doce terra carioca”.* (O Globo 6/12/76)

Assistir a vitória sobre o Atlético, em plena Arena da Baixada, foi impagável. As companhias nos jogos, sempre as mesmas, nos mesmos lugares. Todos entoando um único canto, mesmo torcendo por times diferentes de São Paulo. É claro que estou exagerando, não poderia ser diferente. Sou exagerado e o sentimento é de fim de Copa do Mundo. Acabou a alegria de todos torcerem por um só, pelo Arapongão. A palavra é única. Aliás, exclusiva da língua portuguesa, SAUDADE! O palco ficou vazio.

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Coluna do Torcedor por Alexander Vieira também conhecido como Dr. Alex, advogado de Arapongas.

Comentários

  1. Leonardo diz:

    Que bom que haja torcedores como estes,
    Parabens é por esses e outros que nao morre o futebol.

    Um futebol onde a politica e os empresarios estao dominando, é sempre bom ver uma torcida do interior com força, uma torcida onde nao se tem apoio da diretoria como em grandes clubes.

    Parabens!

  2. Aline Pimenta Anselmo diz:

    O texto do Alexander é a perfeita expressão do que foi o Paranaense 2011:o melhor dos últimos anos e com gratas surpresas. Os times do interior fugiram da tradicional retranca e deram trabalho ao Trio de Ferro da Capital. Operário, Arapongas, Cianorte e Iraty conquistaram vitórias inesperadas e deixaram suas marcas.O Arapongas rebaixou o Paraná, em plena Vila Capanema e,ainda, foi o único time do interior que tirou um ponto do Coxa.
    Parabéns às torcidas do Arapongas e do Operário, que lotaram os seus estádios, e junto com os seus times, mostraram que, no interior, também há o bom e apaixonante futebol !

  3. carlos diz:

    Muito boa sua matéria, realmente o arapongas mostrou sua força no campeonato paranaense, o arapongas demonstra que tem uma torcida apaixonada. Ganhar do atlético na arena poucos conseguiram esse feito. Parabéns mais uma vez pela matéria e mostrar a força do interior e principalmente do arapongão.

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