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“Meu filho não gostaria de saber que entreguei”, confessa Rafinha

06/12/2010 Redação 0

O Campeonato Brasileiro de 2010 chegou ao fim marcado pela suspeita de ‘entrega-entrega’ de Palmeiras e São Paulo nas rodadas finais. Já o volante Rafinha, de 22 anos, tenta superar o fato de ter sido o único jogador na história a ser banido do futebol por ter admitido, em entrevista a uma rádio, que combinou resultado com o adversário.

A punição aconteceu em agosto de 2008 e foi revertida no fim daquele ano. O jogador, então no Toledo, foi eliminado em julgamento no STJD porque confessou que os jogadores de seu time e do Marcílio Dias (SC) combinaram o empate por 0 a 0 que classificou os dois para a segunda fase da Série C.

A exclusão de Rafinha fez com que o jogo fosse anulado. Remarcada, a partida terminou empatada de novo, desta vez por 1 a 1.

O volante voltou a jogar em 2009, pelo Marília, mas uma lesão no tornozelo direito e o rótulo de (ex) banido pesaram. No início deste ano, decidiu trabalhar como torneiro mecânico em metalúrgica de Mirassol, interior de São Paulo, onde moram os pais, por R$ 800 por mês.

– Foi aí que o (Rogério) Perrô (técnico do Paranavaí e ex-Toledo) me ligou, depois de uns seis meses. Falou que estava entrando em contato comigo para eu ir treinando, que ele podia encontrar um clube para mim – disse Rafinha.

O LANCENET! Encontrou o jogador em Paranavaí (PR), a cerca de 500 quilômetros de Curitiba, participando da preparação do clube para o Campeonato Paranaense de 2011.

Introspectivo, Rafinha, dizem aqueles que o viram jogar, tem talento. A preocupação, porém, é com seu estado psicológico. Antes da entrevista, o diretor de futebol do Paranavaí, Lourival Furquim e o técnico Rogério Perrô pediram cuidado para não fazer o trauma do garoto fazê-lo retroceder novamente.

– É um garoto humilde e assumiu uma carga muito grande sozinho. Cometeram uma injustiça, colocando-o como bode expiatório daquele episódio em Toledo. Agora, ele está tentando recomeçar uma vida nova – disse Furquim.

A seguir, trechos da entrevista com Rafinha, feita em duas sessões, em 1 e 2 de dezembro, no Estádio Waldemiro Wagner, onde o jogador tentará se reconstruir.

Voltando um pouco mais de dois anos no tempo, você lembra exatamente como foi o dia em que recebeu a notícia de que estava banido do futebol?

Eu estava em Toledo. No dia seguinte iria viajar para Mirassol para encontrar meus pais. Não lembro direito o que a gente conversou quando se encontrou… Meus pais são tranquilos, naquele momento só me apoiaram. Não sabiam da dimensão do que estava acontecendo… Na verdade, nem eu sabia… (Risos) Até hoje eu não sei… De vez em quando alguém me liga, fulano, sicrano (querendo entrevistá-lo)… E nem sei o que dizer. Mas é isso, quero esquecer o que passou agora e pensar só no futuro.

Nos cinco meses até a pena ser anulada, como você conseguiu superar o afastamento do futebol?

Acho que com os amigos, né? Alguns dizem que são amigos, mas amigos de verdade são meu pai, minha mãe, minha noiva, meus irmãos, que sempre estiveram do meu lado. Mais ninguém! Muita gente saiu fora (quando estourou a notícia). Agradeço também o pessoal do Toledo, que bancou advogado para reverter a situação.
Nota da redação: Rafinha ficou em Mirassol (SP), na casa dos pais, e em Toledo no período.

O fato atrasou sua carreira…

Acho que sim, né? Eu tinha proposta boa do Fluminense, da Unimed, em 2008. O pessoal ia me comprar. Mas eu demorei muito para voltar e saíram fora. Então, isso complicou um pouquinho.
NR.: O volante tinha apenas 20 anos, era revelação do futebol paranaense, apesar de ser paulista de Mirassol, e tinha sido sondado também pelo Paraná Clube.

Depois de ter sido absolvido, você ainda jogou por Marília e, de novo, pelo Toledo. Por que decidiu parar de novo no início deste ano?

Porque eu estava no Marília, machuquei o tornozelo e tive de voltar para o Toledo para operar… Aí, fiquei parado uns seis meses em Mirassol, sem contrato. Mas eu não tinha dito “nunca mais vou jogar”. Resolvi trabalhar (na metalúrgica) porque sou de família humilde, né? Pensei: “Não vou ficar dependendo do meu pai nem da minha mãe na minha casa. Vou querer estudar porque, independentemente do futebol, tem outras coisas por trás, não é só futebol e futebol.” Queria estudar e seguir a vida.
NR.: A lesão no tornozelo foi grave. Como o Toledo estava inativo e o jogador não tinha plano de saúde nem dinheiro para se tratar da melhor maneira, fez a cirurgia pelo SUS e demorou a se recuperar totalmente.

E como está sua cabeça hoje?

Primeiramente, coloco nas mãos de Deus. Acho que Ele tem um propósito para mim, sou evangélico. Mas é como todo homem tem de ser. Se eu abaixar a cabeça, vou me afundar. Tem de pensar para frente, agora é outra história, outra vida… Eu era muito novo também, estava empolgado, jogando bem, tinha propostas de outros clubes, e aconteceu… Mas é passado, estou com outra cabeça e em outro clube.

Você acompanhou a Série A do Brasileirão?

Estou. Vi Corinthians e Vasco (2 a 0), Guarani e Grêmio (0 a 3) e um pouquinho de Palmeiras e Fluminense (1 a 2). Está bom o fim. Tomara que o melhor vença.

O que achou de Palmeiras 1 x 2 Fluminense, na Arena Barueri?

(Risos) Jogo bom, né?

Já imaginou sofrer pressão da própria torcida para entregar o jogo? E tendo a experiência que você tem hoje, de ter sido banido do futebol por admitir que combinou um resultado que beneficiaria os dois times que se enfrentavam…

O que posso dizer? É complicado… Vi Roberto Carlos (do Corinthians) dizendo que na Europa é diferente… Não sei se é o jeito do brasileiro, a cultura, mas acho que, independentemente de o clube não ter mais chance de ser campeão, cada um tem de entrar para defender seu clube. Tem de honrar o que está vestindo, quem paga o salário. Jamais entraria em campo para perder para beneficiar alguém…

Nem se fosse para beneficiar a própria pele? Porque a torcida do Palmeiras ameaçou os jogadores. Dinei (do Palmeiras) fez um gol e comemorou constrangido…

Eu faria meu papel, não só como jogador, mas como homem também. Porque atrás de mim vem minha família, minha noiva… Acho que, no futuro, quando tiver meu filho ele não vai gostar de falar que entrei para perder. E como é que vou cobrá-lo para fazer alguma coisa? Acho que, se eu estivesse ali, faria meu papel, independentemente de alguém gostar ou não. Sei da grandeza do Palmeiras, e que em São Paulo é diferente, mas acho que Dinei fez a coisa certa: fez gol e defendeu o time.
NR.: Rafinha divide casa alugada pelo clube com outros atletas. A noiva, Lady, que tem um filho do primeiro relacionamento, mora em Toledo, a 290km de Paranavaí.

Acha que ainda pode chegar a um grande clube do Brasil?

Claro, com certeza! Vou chegar lá ainda. Elias (do Corinthians) é um exemplo que eu vejo. Ele passou um ano parado, jogando na várzea, voltou e hoje é da Seleção.

Fonte: Lancenet

Preserve o jornalismo e cite a fonte ao copiar. Se diploma não vale nada, a ética deve servir. Pelo bem do jornalismo. Equipe Redação em Campo.

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