Um estádio cult em Curitiba

Pouco mais de duas mil pessoas presenciaram cenas de nostalgia, esquecimento, tradição, fracasso, agitação e monotonia na Vila Capanema. No acanhado palco curitibano da Copa do Mundo de 1950, a recorrente sensação de abandono foi somente parte da decoração da vitória paranista, por 1 x 0, sobre o América Mineiro, pela 2ª divisão do Campeonato Brasileiro.

Dentro de campo, a realidade contrastou entre a genialidade do garoto Kelvin no manejo da bola até um inesperado bate-boca entre o treinador do Paraná Clube e um torcedor. O próprio piá prodígio já havia aberto o marcador para o time da Vila, mas um indivíduo descontente com a situação gastou parte do tempo chamando Roberto Cavalo de burro.

Cena um tanto quanto romântica, pois o técnico resolveu deixar a peleja de lado para retribuir a atenção do camarada que cravou sua cara no alambrado para pentelhar. Foram pelo menos cinco minutos de trocas de ofensas, um show alternativo para aqueles que preferiram tirar o radinho da orelha para ouvir os recíprocos xingamentos.

Para a plateia, até mesmo o amendoim torrado parecia mais crocante e saboroso. Diversos aproveitaram pra tomar partido, emitindo seus gritos enquanto esperavam o juiz acabar a etapa inicial. Tudo ao bom som de coros desafinados vindos das arquibancadas e cadeiras cobertas. Como as musiquinhas não pegaram, logo se voltou à rotina de silêncio e cornetagens.

A empolgação e participação parecia a mesma dos tempos recordados pelos velhotes saudosistas. Eles não esqueceram dos sofríveis tempos de Colorado por orgulho e teimosia, mas também estavam adorando a dança das cheerleaders paranistas. Se faltou cerveja para animar essa garotada, sobrou perversão nos comentários da torcida.

Com um pouco de esforço, essa gente nem sequer vai querer a volta dos tempos de glória noventista dentro de campo. Vencer é apenas uma bobagem de um mundo competitivo, onde o que importa é viver na maciota. E o Paraná Clube, mesmo na vitória, vive seus melhores tempos de melancolia.

Afinal, o Estádio Durival Britto e Silva é o único de time profissional a servir pão com bife como tempero para a vista de dribles desconcertantes feitos por Kelvin – como também para as botinadas dos demais jogadores. Talvez, de forma inconsciente, exista um mainstream da Vila Capanema. É por isso que a notável turma do amendoim continua fiel ao seu time do coração.

Texto também publicado no blog www.interney.net/blogs/deprimeira

Felipe Lessa é repórter do jornal Tribuna do Paraná, colaborador do www.interney.net/blogs/deprimeira e freelancer do site globoesporte.com

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