quinta-feira, abril 24, 2014 7:59 am
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Grandes plantões esportivos: Redação entrevista Carlos Kleina e José Carlos Antão

Grandes plantões esportivos: Redação entrevista Carlos Kleina e José Carlos Antão

Tão fundamental quanto qualquer outro papel durante uma jornada esportiva no rádio, o plantão ou plantonista como também é chamado, é aquele que nos deixa por dentro de tudo quando sintonizamos uma emissora para acompanhar a partida do nosso time de coração. E para saber um pouco mais sobre esta profissão, o Redação em Campo entrevistou dois grandes plantões esportivos do nosso Estado. Na capital, Carlos Kleina, atualmente na Rádio RB2 AM 1430, e em Londrina, da Rádio Brasil Sul, AM 1290, José Carlos Antão. Eles nos contam como começaram a carreira, a opinião sobre a tecnologia e o futuro do rádio.

 

O início

 

Carlos Kleina. Foto: divulgação

Na década de 70, Carlos Kleina já acompanhava como ouvinte as programações e até colaborava. Ele relembra as transmissões da Rádio Clube Paranaense (B2), onde estúdios estavam localizados na Rua Dr. Muricy, no centro de Curitiba. Marcelo Martins, José Luiz Kloss, Pedro Boralli, estes eram os comunicadores de esportes que Kleina acompanhava numa programação de 12 horas ao vivo. “Um dia, o Marcelo mudou de prefixo, e foi para a extinta Cruzeiro do Sul. E eu, continuei colaborando com o Marcelo. Certo dia fui fazer- lhe uma visita e soube que estava doente. O diretor (Luis Ernesto) gostava da minha voz, e pediu para que eu anunciasse as músicas. E assim fiquei por um bom tempo e até ganhando um cachê”.

 

A emissora queria contratar Carlos Kleina, e ele não aceitou. E logo, na Radio Clube, recebeu convite de Fuad Kalil, na época diretor de esportes. E assim, ele passou a ser auxiliar de plantão de Oldemar Kramer e Eduvaldo Brasil, em 1976. “E para fazer o plantão nas jornadas foi um pulo. Um dia o Kramer estava ruim da garganta e o Edu era padrinho de casamento. E assim o Fuad me escalou no jogo amistoso entre Joinville e Atlético Paranaense”.

 

Lá em Londrina, alguns anos mais tarde, José Carlos Antão iniciava a carreira de plantão esportivo. Ele, que tinha desde criança, um fascínio pelo rádio e era ouvinte cativo das emissoras brasileiras, fez a primeira participação em 1983 e 84, com o plantão esportivo Sérgio Antão – seu irmão e um de seus incentivadores – como rádio escuta, na Rádio Norte de Londrina, lendo os jogos da Loteria Esportiva.

 

José Carlos Antão. Foto: divulgação

“Mas meu primeiro trabalho solo como plantão aconteceu em 1983. O país vivia uma época de racionamento de energia elétrica e muitas partidas eram disputadas no período da tarde nos meios de semanas para se evitar o uso dos refletores. E como eu estava disponível no período da tarde, o narrador João Marcos de Souza, da Rádio Londrina me chamou para fazer o plantão. Não decepcionei, mas minha participação se resumiu apenas a esse jogo, pois a equipe já tinha o plantão titular”.

 

José lembra que essa equipe titular da Rádio de Londrina, tinha como comentarista Nilton Góis – que acabou indo para a Rádio Alvorada, e nesta rádio estavam formando uma equipe, e José foi indicado por Nilton. “Daí eu comecei a fazer parte como rádio escuta do plantão titular que era o Flávio Jobim e que até hoje está na ativa com mais de 40 anos de experiência como plantão agora fazendo parte da equipe da Rádio Paiquerê”.

 

Ainda em 1983, Amarildo Lopes assumiu o departamento de esportes da Rádio Alvorada, e a equipe foi desfeita, mas José Carlos Antão permaneceu passando a plantão esportivo da nova equipe que tinha Carlos Martins, Carlos Alberto Garcia, Flávio Campos, Isnard Cordeiro, Jorge Scaff e os repórteres Gelson Negrão e França Nery. “O Carlos Kleina era o correspondente da equipe em Curitiba. Era uma verdadeira seleção do rádio”.

 

José Carlos relembra que quando criança ficava colado no “radinho” ouvindo Manuel Ramos da Tupi, de São Paulo, Paulo Edson, da Bandeirantes,  Antônio Augusto, da Guaíba e aqui do Paraná, sempre foi fã incondicional da dupla KK (como dizia Edgar Felipe), Kramer e  Kleina da Rádio Clube Paranaense, o “primeiro poder no esporte”, a  B2. “Esta foi para mim a dupla mais perfeita de plantões. O Kramer, sempre bem informado, sempre com suas estatísticas atualizadas e o Kleina, com sua ‘voz padrão do rádio brasileiro’”.

 

O trabalho naquele tempo

 

E como era trabalhar como plantão esportivo naquele tempo? Como era a rotina, quais recursos existiam para o trabalho do plantão? Carlos Kleina diz que era bem difícil. Naquela época não existiam celulares, nem MSN, Twitter, Facebook. “Cada auxiliar de plantão ficava ouvindo uma emissora de rádio de fora do estado. Bandeirantes, de São Paulo, Guaíba, de Porto Alegre, Globo do Rio, Excelsior da Bahia, Clube do Recife. Tudo por onda curta. Às vezes perdíamos a sintonia e quando voltava estava 1 a 0 para o time tal e quase do final do jogo ficávamos sabendo quem fez o gol.”

 

Carlos Kleina com Lombardi Jr, em Santiago, no Chile. Foto: divulgação

O telefone era limitado. “A gente não podia utilizar os telefones, tudo era na raça mesmo”, lembra José Carlos Antão. Eles ouviam os programas esportivos e tinham que formar o Grande Placar Esportivo. José diz que ouvia as grandes emissoras e gravava tudo e domingo era só acompanhar e preencher os resultados. “Mas para se ouvir uma emissora dentro de um estúdio de rádio, era quase impossível. Então, a solução que eu encontrava era deixar o rádio a uns 20, 30 metros numa área sem interferência e com um fio eu conectava uma ponta na saída do áudio do rádio e a outra ponta no meu fone de ouvido para que assim eu pudesse ouvir as rádios em ondas curtas com maior nitidez. Era um verdadeiro malabarismo. Já cheguei a colocar o rádio até em cima de galho de árvores para facilitar a sintonia. A emissora sempre mantinha um radio escuta para nos auxiliar, mas o trabalho era tão cansativo que acabava não voltando na jornada seguinte”.

 

A chegada da tecnologia

 

Agora com toda a tecnologia à disposição, Kleina e Antão concordam que isto facilitou a vida dos plantões. E, além disto, também reduziu as equipes.  “Lá atrás, trabalhávamos com oito ou até dez escutas. Hoje, com as redes sociais, um só da conta”, afirma Kleina. Já José Carlos lembra que hoje a tecnologia transformou o trabalho em mais confiável e menos cansativo. “Era um trabalho de formiguinha que no final sempre terminava bem e que servia de fonte de informações para jornais e muitas outras emissoras do Paraná e do Brasil. A tecnologia aboliu a figura do rádio escuta. Hoje um plantão esportivo pode conversar simultaneamente com dez ou 15 companheiros ao mesmo tempo e obter os resultados que precisa em tempo real. Um plantão do Rio Grande do Sul tem ao mesmo tempo as mesmas informações dos plantões de uma emissora do Acre ou de Rondônia”.

 

Mercado atual

 

“Lamentavelmente, a gente não tem mais as grandes figuras dos plantões esportivos. Sobraram poucos. Eu cito o Carlos Kleina, em Curitiba, o Cleber Grabauska, na Rádio Gaúcha que é um excepcional plantão, e o Flávio Jobim, da Paiquerê de Londrina”. José Carlos Antão explica que não acredita que outros profissionais ficaram para trás, mas que o problema é a falta de renovação. “Parece que ninguém quer ser plantão por não suportar ficar três, quatro horas trancado num estúdio. Em muitas emissoras eu noto que há um revezamento. Já ouvi narradores, comentaristas e repórteres, participando de jornadas esportivas como plantão”.

 

Carlos Kleina tem a mesma opinião, mas acredita que a falta de renovação no mercado também tem a ver com investimentos. “As emissoras sabem que o produto futebol é muito caro e não investem como deveriam, mas existem exceções. E, infelizmente alguns colegas não acompanharam a evolução tecnológica e hoje estão fora do mercado”.

 

Características do plantão esportivo

 

Estar por dentro de todos esportes, lendo muito artigos nos sites de confiança e especializados, ler jornais, ter muita seriedade e uma boa voz são os principais itens lembrados por Carlos Kleina e José Carlos Antão. Além disto, gostar do que faz.

 

“Acho que o plantão deve se preocupar muito com estatísticas. É ele quem deve levar subsídios para o repórter, para o comentarista e também para o narrador durante uma jornada esportiva. O plantão tem que estar ligado antes, durante e após as jornadas esportivas. Toda a grande equipe deve começar com um bom plantão”, afirma Antão.

 

 

E o futuro do rádio?

 

Carlos Kleina é direto. “O rádio nunca vai perder o espaço, principalmente o FM. Já o AM quando passar a digital voltará a ser o que era”. Para José Carlos, o rádio terá vida longa e o avanço da tecnologia só tem beneficiado. “Ele faz parte da vida das pessoas e está presente em todo lugar, principalmente aqui no nosso país. Aquela frase que o Carlos Kleina dizia em todo o começo de jornada, ‘brasileiro não vive sem rádio’, para mim é a mais pura verdade. Admiro o avanço tecnológico, mas para mim o rádio é imbatível”.

 

As boas lembranças

 

Tabelinha do Campeonato de 1987. Arquivo

 

Pedimos para nossos entrevistados nos contar alguma história inusitada de bastidores. Carlos Kleina revelou que são muitas. “Conto uma: O saudoso Lombardi Junior um dia me disse: sinto que minha narração as vez cai de produção no segundo tempo. Quando isso acontecer invente alguma coisa para eu saber (…). Em uma transmissão, no segundo tempo senti o velho Lomba meio derrubado, e quando da passagem do giro do placar…e terminei assim: E o Brasil continua ouvindo um dos maiores narradores do rádio brasileiro… e o operador soltou a vinheta com o nome dele…em seguida, o Lombardi diz assim: ‘Não adianta Kleina, o jogo lá no gramado está muito ruim’”.

 

José Carlos Antão relembra de 1984 quando o Londrina disputava um seletivo que valia vaga para a Copa CBF. “Na última rodada, três equipes ainda brigavam pelas duas vagas para o torneio, Pinheiros, Londrina e União Bandeirante. O LEC enfrentava o Pinheiros, em Londrina e o União Bandeirante enfrentava o Foz na fronteira. Com muito sacrifício, eu consegui sintonizar a Rádio Cultura de Foz do Iguaçu nos 49 metros. Foi uma façanha. Dentro do estúdio eu subia  em uma cadeira  próximo à janela e erguia o meu motorádio com as mãos para ouvir o som com mais nitidez, o que era coisa rara”.

 

José conta que o jogo em Foz era muito importante para o Tubarão, pois um empate lá, com vitória ou empate em Londrina, o LEC estaria classificado. E o jogo terminou em 1 a 1, em Londrina e em Foz o placar seguia sem gols. E a rádio Paiquerê que transmitia a partida anunciou que o jogo tinha terminado em 0 a 0.

 

 

“A festa foi geral nos vestiários do Londrina. Diretores davam entrevistas já planejando  o futuro do time numa competição nacional. Enquanto isso, na Rádio Alvorada, o narrador Carlos Martins, me perguntava insistentemente como estava o jogo em Foz e eu dizia que ainda estava em andamento nos minutos finais. Em outra intervenção do Martins, eu informei que o União tinha um escanteio que talvez fosse o último lance da partida. E não deu outra! Cobrado o escanteio, num bate e rebate, o Carlinhos, marcou para o União, que venceu a partida e desclassificou o Londrina. O repórter Gelson Negrão correu até o Dorival Pagani, que comandava o Londrina e comunicou a triste noticia, acabando com a festa do azul e branco.  E o comentarista Flávio Campos, arrematou: ‘Bem feito para o Londrina, que estava ouvindo a rádio errada. O Londrina caiu no conto da Cabiúna!’ A rádio Cabiúna, de Bandeirantes, havia repassado à outra emissora que o jogo em Foz havia terminado em 0 a 0”.

 

 

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Preserve o jornalismo e cite a fonte ao copiar. Se diploma não vale nada, a ética deve servir.
Pelo bem do jornalismo. Equipe Redação em Campo.

 

 

Sobre Fabia Ioscote

Fabia Ioscote
Jornalista, formada pela Universidade Tuiuti do Paraná e pós-graduada em Marketing pela PUC-PR. Fundadora do Redação em Campo. Curitibana, viciada em futebol de segunda divisão e em aprender idiomas. Aprendiz de empreendedorismo, amante da astronomia, rock n’ roll e defensora dos animais nas horas vagas.
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