sexta-feira, abril 18, 2014 3:58 am
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Copa do Mundo em Curitiba: 1950 x 2014

Vila Capanema - Arquivo Folha Imagem

A maior competição de futebol entre países estará de volta ao Brasil após 64 anos. Como na Copa do Mundo de 1950, em 2014 Curitiba sediará partidas do evento. Na primeira oportunidade os jogos foram disputados no Estádio Durival Britto e Silva, a Vila Capanema. Em 2014, o palco será o Estádio Joaquim Américo Guimarães, a Arena da Baixada. As diferenças entre as duas Copas são inúmeras, da importância do evento à organização e estrutura das praças esportivas.

A escolha da sede

No período pós-Segunda Guerra Mundial, enquanto os países europeus se reconstruíam e não tinham capacidade de realizar uma grande competição, o Brasil apareceu como candidato e recebeu a chance de sediar a Copa de 1950. Seis cidades foram escolhidas para serem sub-sedes: São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte e Curitiba. O Estádio Durival Britto e Silva, inaugurado em 1947 e com capacidade para cerca de 12 mil pessoas, recebeu os jogos do mundial. A Vila Capanema, então propriedade do Clube Atlético Ferroviário, era o terceiro melhor estádio do país. “De qualquer maneira, porém, o DURIVAL DE BRITTO, por enquanto, está perdendo apenas para o Pacaembu e para o Municipal do Rio [...]” (Gazeta do Povo, 27 de junho de 1950, p.14).

A disputa do Pan-Americano de 2007 no Rio de Janeiro, a tradição no futebol, o bom momento econômico e o fato da última Copa na América do Sul ter sido disputada há muito tempo (em 1978, na Argentina), impulsionaram a candidatura do Brasil para a Copa de 2014. Curitiba foi escolhida como uma das 12 sub-sedes. Os jogos serão realizados na Arena da Baixada, propriedade do Atlético, melhor estádio da cidade e um dos mais modernos da América Latina, atualmente com capacidade para pouco mais de 28 mil pessoas.

Capacidade e conforto

Hoje as exigências da FIFA para que uma praça esportiva esteja apta a receber os jogos da Copa são maiores. É recomendado o número mínimo de 30 mil lugares, todos encadeirados e com visibilidade total do campo. As cadeiras necessitam uma largura de, pelo menos, 47 cm; um encosto de 30 cm de altura; e a distância entre os assentos deve ser de 85 cm. A Arena da Baixada terá sua capacidade ampliada para 42 mil pessoas e as cadeiras atuais serão trocadas por outras que respeitem os padrões estabelecidos. Na Copa de 50 isso não existia. Os estádios, à exceção do Pacaembu (SP) e Maracanã (RJ), não eram tão grandiosos como os atuais. A maioria dos assentos, não apenas na Vila Capanema, era de cimento ou madeira, as tradicionais arquibancadas.

De acordo com o caderno de encargos da FIFA, é recomendado que o estádio seja coberto para proteger atletas, imprensa e torcedores dos raios solares e do clima frio ou úmido. Para 2014, a Arena da Baixada terá todos os assentos cobertos. Em 1950, a cobertura existia apenas no setor mais nobre da Vila Capanema.

Evolução na transmissão

O desenvolvimento tecnológico que aconteceu entre as duas Copas no Brasil também acarretou em algumas novas exigências da FIFA. A cobertura da Copa de 50 foi feita por meio do rádio e da imprensa escrita. A televisão chegou oficialmente no país ainda em 1950, com a criação da TV Tupi, mas após a realização do evento. A primeira Copa televisionada foi a de 1954, na Suíça.

Hoje, com centenas de profissionais de comunicação, transmissões televisivas em alta qualidade e o advento da internet, os estádios necessitam ter uma estrutura maior para a imprensa, com novos espaços (zona mista, estúdios de TV, sala de coletiva de imprensa, entre outros); conexão de internet veloz e estável; e inúmeros aparelhos de TV espalhados pelo estádio.

Mobilidade

Em 1950, a população de Curitiba era estimada em 180 mil habitantes. O transporte coletivo curitibano estava no final da “era dos bondes”, que acabou em 1952. As linhas de ônibus, da forma como são hoje, não existiam. A frota de carros era menor e os problemas na mobilidade urbana também.

O aumento da população – hoje estimada em 1 milhão e 800 mil pessoas – e, consequentemente, do número de veículos, é uma preocupação abordada no caderno de encargos da FIFA. Pelos padrões, devem existir estacionamentos de grande capacidade para carros e ônibus, de preferência juntos do estádio, mas aceitos em um raio de 1,5 km. Para um estádio de 40 mil pessoas, caso da Arena, seriam necessárias cerca de seis mil vagas. Meios de transporte público precisam servir a praça esportiva – os ônibus, no caso atual de Curitiba.

Ingressos

Na Copa de 50, a arrecadação com as bilheterias foi abaixo do esperado. O acordado entre a FIFA, CBD e governo do Paraná, era que, para Curitiba ser uma das sub-sedes, os dois jogos teriam que arrecadar Cr$1 milhão*. Acabaram somando Cr$700 mil e o estado teve que desembolsar os Cr$300 mil faltantes. Um dos possíveis motivos para o público insuficiente era o preço dos ingressos, considerando que o salário mínimo no Paraná, em junho de 1950, era de Cr$380.

Existiram três categorias de ingresso para os jogos em Curitiba. As cadeiras cobertas custavam Cr$120; a arquibancada, Cr$40 e a geral Cr$20. Mulheres e estudantes pagavam o preço integral do ingresso. Para a Copa de 2014, a estimativa – caso sejam mantidos os valores da Copa de 2010, na África do Sul – é que os ingressos variem de R$150 à, pelo menos, R$1500. O desejo da FIFA, assim como na primeira Copa realizada no Brasil, é que não existam meias-entradas, desrespeitando a lei estadual que garante o direito da meia-entrada para estudantes, idosos, doadores de sangue e professores.

Espanha 3 x 1 EUA, no Estádio Durival de Brito Copa do Mundo 1950. Divulgação

O esporte em si

Curitiba recebeu dois jogos da primeira fase da Copa de 1950. Pelo Grupo 02, em 25 de junho, domingo, a Espanha venceu os Estados Unidos por 3 a 1, com um público pagante de 9.311 e renda de 398 mil cruzeiros. Como preliminar, enfrentaram-se Internacional, de Campo Largo, e o União, da Lapa. Para não ter concorrência de público e atenção, outros eventos não poderiam acontecer no mesmo dia dos eventos da Copa. Os tradicionais páreos de domingo do Jockey Club do Paraná foram antecipados para sábado e as partidas de futebol do Campeonato Paranaense também tiveram suas datas alteradas.

No dia 29 de junho, quinta-feira, Paraguai e Suécia empataram em 2 a 2, em jogo válido pelo Grupo 03. Segundo relatos da época, apesar de ter sido uma partida melhor que a primeira, contou com um público menor, de 7.903 pagantes e renda de 300 mil cruzeiros. “[...] Suécia X Paraguai foi o mais interessante, foi, bem, podemos afirmar, o cortejo que rehabilitou, aos olhos do público paranaense a Copa do Mundo [...]” (Gazeta do Povo, 02 de julho de 1950, p.16)

Em 2014, Curitiba receberá novamente apenas jogos da primeira fase da competição. Serão disputados quatro jogos de quatro grupos diferentes (B, E, F e H), e somente um “cabeça de chave” jogará na capital paranaense. As partidas estão marcadas para os dias 16, 20, 23 e 26 de junho de 2014. Empregando a mesma distribuição dos grupos da Copa do Mundo 2010, Curitiba receberia Argentina x Grécia, Dinamarca x Camarões, Nova Zelândia x Eslováquia e Suíça x Honduras.

A Copa de 1950 não correspondeu às expectativas criadas antes do evento. “[...] Ficou, de tudo, na lembrança de todos, como que uma desilusão… Enfim, a Copa do Mundo para torcida, não foi assim tão ‘grande’ como se esperava… [...]” (Gazeta do Povo, 02 de julho de 1950, p. 16). O mesmo está sendo feito para 2014. Espera-se que o balanço pós-Copa, desta vez, seja positivo.

 

*Valores em Cruzeiro (Cr$), moeda vigente em 1950.

 

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Sobre João Alves

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